As coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão | Por: Petreya Cartolano Chaim

Nesta edição, a Confraria das Amigas recebe Petreya Chaim, educadora e integrante do nosso grupo de leitura, para compartilhar uma experiência que marcou sua trajetória na educação. Durante alguns anos, esteve à frente do projeto Literatores – atores da literatura, desenvolvido com turmas do Ensino Fundamental I e apresentado em um congresso das escolas salesianas, no município de Bento Gonçalves/RS.
A proposta aproximava as crianças dos clássicos da literatura por meio da criação e da releitura, permitindo que cada história encontrasse novas formas de expressão. O que permanece dessa experiência aparece agora nesta crônica, escrita a partir das memórias daquele projeto e do modo como a literatura continua a fazer parte de seu trabalho.
Atualmente, Petreya desenvolve o CLARÉ – Clube do Livro da Arca de Noé, projeto que acompanha crianças desde o Berçário até o 5.º ano e envolve também suas famílias. A leitura segue como espaço de descoberta e criação, ampliando-se para os contextos e intertextos que nascem do encontro entre um livro e quem o lê.
Em “As coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão...”, Petreya revisita uma experiência que terminou no calendário, mas continua presente na memória de quem dela participou.

Há coisas que terminam, mas não acabam. Ficam.
Ficam nas fotografias guardadas, nos corredores por onde passaram pequenas vozes, nos olhos que ainda brilham quando alguém se lembra de uma história. Ficam nas palavras que, um dia, foram apenas palavras e, de repente, ganharam corpo, gesto, cenário, música e vida.
Foi assim com o projeto ‘Literatores – atores da literatura’.
Por algum tempo, nossas crianças deixaram de ser apenas leitoras. Tornaram-se personagens, narradoras, poetas, dramaturgas, inventoras de mundos. Entraram pela porta da literatura e descobriram que um livro não termina quando fechamos suas páginas. Talvez seja justamente ali que ele comece a viver dentro de nós. E elas viveram.
Viveram Shakespeare, atravessando os caminhos de Romeu e Julieta com a delicadeza de quem ainda está descobrindo o significado do amor e da amizade. Encontraram Drummond e perceberam que uma pedra no meio do caminho pode ser muito mais do que uma pedra: pode ser pergunta, descoberta, desafio, memória. Com Cecília Meireles, aprenderam que a poesia também mora nas pequenas coisas, nos sons, nas cores, nos movimentos e nos silêncios.
Viajaram com Casimiro de Abreu para tempos de infância que pareciam distantes, mas que se aproximaram quando foram reinventados por pequenas mãos. E encontraram Fanny Abramovich, entre tantos outros escritores, descobrindo que a literatura também pode ser brincadeira, encantamento, surpresa e possibilidade.
Foram muitos autores. Muitas histórias. Muitos tempos. E muitas crianças.
Cada releitura era uma espécie de passagem secreta. De um lado, o clássico que atravessou gerações. Do outro, a infância, com sua maneira tão própria de olhar o mundo. No encontro dos dois, nascia algo novo.
Porque uma criança não lê uma história apenas com os olhos. Lê com o corpo inteiro.
Lê quando desenha, quando representa, quando pergunta, quando modifica o final, quando inventa uma fala para um personagem, quando transforma um poema em cena, quando empresta sua voz a alguém que nasceu muitas décadas — ou muitos séculos — antes dela.
E foi assim que os Literatores fizeram literatura. Não apenas reproduziram histórias. Recriaram-nas.
Deram novos sentidos às palavras antigas. Trouxeram os clássicos para perto. Misturaram passado e presente, realidade e imaginação, aquilo que estava escrito com aquilo que ainda precisava ser inventado.
Havia Shakespeare e havia infância.
Havia Drummond e havia descoberta.
Havia Cecília e havia poesia.
Havia Casimiro e havia saudade.
Havia tantos escritores e, entre eles, havia uma autoria que crescia silenciosamente: a das próprias crianças.
Talvez essa seja a maior beleza de um projeto literário: perceber que, quando oferecemos às crianças bons livros, não estamos apenas ensinando-as a ler. Estamos oferecendo-lhes possibilidades de existir em muitos mundos.
Elas podem ser reis e rainhas, meninas e meninos, bichos, poetas, heróis, vilões, viajantes. Podem voltar no tempo, visitar outros lugares, conversar com quem já partiu e imaginar aquilo que ainda não existe.
Durante o projeto ‘Literatores’, fizemos um passeio pelas histórias e pelos tempos. Mas, sobretudo, fizemos um passeio pela imaginação afetiva e criativa de cada criança.
E quando os projetos terminam, talvez seja justamente a hora de perceber que eles não terminaram de verdade.
Porque ficam as cenas.
Ficam as vozes.
Ficam os textos.
Ficam os desenhos.
Ficam os personagens.
Ficam as descobertas.
Ficam os risos e aquela emoção bonita de ver uma criança se reconhecer capaz de criar.
Fica a literatura — essa casa sem portas, onde sempre cabe mais uma infância.
E ficam também as memórias de um tempo em que nossas crianças foram Literatores: atores da literatura, autores de novas possibilidades e protagonistas de suas próprias histórias.
Drummond escreveu que as coisas findas, muito mais que lindas, ficarão.
Talvez porque aquilo que realmente nos toca não desapareça quando termina.
Transforma-se em memória.
E a memória, quando nasce da infância, tem um jeito especial de permanecer.
Por isso, quando daqui a muito tempo olharmos para trás, talvez não nos lembremos de cada detalhe, de cada fala ou de cada cenário.
Mas nos lembraremos do essencial:
um dia, nossas crianças incorporaram a literatura.
E, ao adentrar, deixaram um pouco delas em cada história.
E levaram um pouco de cada história consigo.
E assim, ‘As coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão’.
Petreya Aparecida Cartolano Chaim – Graduada em Letras e Pós-graduada em Currículo e Prática Educativa (PUC – RJ). Especialista em Projetos Pedagógicos e Coordenadora Pedagógica em Lorena, São Paulo. Integrante da Confraria das Amigas.


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