Histórias que não nos deixam sozinhos
Conheça os autores participantes da Revista Vida em Comum nº04

Editar uma revista como a Vida em Comum é acompanhar o momento em que uma história deixa de ser apenas de quem a viveu e passa a encontrar o olhar de quem a lê.
O trabalho de curadoria editorial envolve reconhecer aquilo que cada texto preserva de uma experiência e perceber como essas histórias podem conversar entre si. É um exercício de aproximação: entre uma escrita e outra, entre o que foi vivido e o que pode ser imaginado por quem lê.
Tenho pensado nisso também a partir de uma leitura recente: uma conversa entre John Berger e Susan Sontag sobre o ato de narrar, reunida em To Tell a Story [ou Narrar histórias, em edição da Fósforo]. Para Sontag, a narrativa se move entre verdade e invenção, entre aquilo que a experiência oferece e aquilo que a imaginação é capaz de criar; para Berger, a necessidade de contar nasce antes, de uma vida que foi vivida e cujo sentido pode se perder se não for narrado.
Contar histórias é uma experiência ancestral de partilha: partimos de alguma coisa verdadeira — um episódio qualquer ou sublime de nossa vida — e a transformamos em linguagem e narrativa. A invenção, a edição e o improviso não apagam essa origem; partem dela para construir uma forma capaz de alcançar outras pessoas.
Para Berger, a história se torna, então, uma forma de preservar aquilo que poderia ser levado pelo esquecimento. É dessa perspectiva que me aproximo.
“Comecei a inventar, mas mantendo relação com a verdade. Mas... mas, se a coisa deu certo — se é que deu —, essa história vai ser lida como ficção (...); e por que vai ser ficção? Porque vai existir em todo lugar e em lugar nenhum. E é esse deslocamento do tempo e do espaço que, creio eu, transforma uma coisa em ficção. (…) Quanto lemos histórias de outras pessoas, temos uma ideia daquele lugar, mas ela se torna parte da nossa experiência e assim se desloca de onde realmente aconteceu... (…) Creio que é menos, talvez... menos sociológico do que isso. Realmente não me importa se esse tipo de história existe ou não na literatura. Estou falando com toda a franqueza. Quer dizer, é porque aquela vida foi vivida. Vejo uma espécie de sentido nisso, e quero preservá-lo. Assim ele não se perde, não é esquecido.” (John Berger)
Quando uma história encontra um leitor, aquilo que era singular pode se tornar reconhecível — não porque vivemos a mesma experiência, mas porque podemos nos reconhecer no olhar de quem a viveu. Contar uma história é, nesse sentido, contar com alguém: confiar que aquilo que foi vivido encontrará outro olhar e outra imaginação.
É também esse o propósito da Vida em Comum: reunir diferentes formas de escrita e fazer circular histórias singulares, criando aproximações entre autores e os muitos universos de quem lê.
Participam da quarta edição da revista catorze autores e a escrita dos seus dias: Aline Testasicca, Caio Ayres Frederich, Cristina Merkl, Edson Briato, Ingrid Dayling, João Pedro Duarte, Keyth Martins, Lazaro Floriano, Marcos da Rocha, Mario Luis Grangeia, Patrícia Di Lorenzi, Patrícia Lewandowski, Rafaela Oliveira e Sérgio Bernardo.
Nosso agradecimento pela prosa e pela partilha!
A quarta edição da Revista Vida em Comum, assim como as anteriores, está disponível para leitura e download gratuito em nosso site: www.revistavidaemcomum.com.br


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