Antes da norma, a vida
- Rebeca Rasel

- 25 de abr.
- 2 min de leitura

"Bernardo é quase uma árvore
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro."
(Manoel de Barros)
Existe um ponto delicado, profundamente humano, no trabalho editorial. Muitas vezes percebido como impossibilidade ou incômodo por boa parte dos editores, esse ponto, no entanto, tem despertado minha afeição a cada novo texto que não nasce da norma ou da língua, mas da própria vida, do ritmo familiar, da morosidade dos dias, dos encantos da memória, da infância inscrita nas palavras que, à mesa do jantar, revivemos.
Conhecer o Goiás, a liberdade e o poente; a prece, o cordel e a penitência; a vida que, outrora imensa, em letras antigas, já não sabemos reproduzir. Por censurá-la demais; por vivê-la cada vez menos. Ainda assim, com atenção, escuto outra página rasurada, como se em busca de uma raiz de cidade, de estória, de pertencimento.
E o que encontro é diálogo, é rascunho, é troça e regionalismo; é desvio, é origem, é o modo como ainda se organizam mundos, desmoronam saudades, avistam-se praças e perdões, e também espelhos.
Quando alguém escreve a partir desse lugar, do aparente não pensar, do não revisado, do não apropriado, vejo alguém e seu desejo de registrar em letra uma experiência, de pertencer ao mundo do outro a partir dessa oralidade vivente, que o editor tende a corrigir, aparar, alinhar, por vezes desestruturar.
O desafio editorial, ao menos para mim, ao encontrar o peito aberto de um autor em minha caixa de e-mails, não é eliminar a diferença, mas escutá-la e ajustar em mim a vontade de precisão, o costume, ou qualquer julgamento. Porque deveria existir uma escuta que corrige e outra que compreende. Deveria ser esse o nosso papel, o da compreensão, o da busca por sentido, mesmo em um mar em que o transbordo não seja o da melhor forma, mas o do valor proposto, o da sincera vontade de ser ouvido.
Penso, ao revisar, no gesto da mediação, embora exista uma ou outra correção. Não impor a norma como destino, mas oferecê-la como ferramenta, como instrumental talvez ainda não compreendido ou desconhecido, algo que possa ampliar o alcance de um texto, torná-lo legível, viável, pertencente a outros circuitos ainda não acessíveis.
O tropeço não é falha. É o momento em que o autor percebe as camadas e desvios da própria escrita, o jogo entre manter a autoridade e ajustar a autoria, sem renegar a origem, sem se fechar a outras maneiras de existir na linguagem.
Editar é permitir que o escritor não abandone a própria alma para ser ouvido. É caminhar ao lado, apontar possibilidades e não esquecer que a voz que conduz o texto não é a sua. Por isso importa, como a chuva ou o mundo pequeno de Manoel de Barros, amplificá-la.


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