Bruto intervalo
- Rebeca Rasel

- há 3 dias
- 1 min de leitura
[a literatura é o lugar onde podemos ser sinceros]

Um escritor reconhece cedo que a vida, tal como se apresenta, é insuficiente. Austera, sufocante, por vezes medíocre.
Escrevemos em um mundo de fábulas impuras que silenciam nossas impuras palavras. Uma forma de alteridade enviesada, que atravessa a vontade e evidencia a servidão.
A literatura é o lugar onde podemos ser sinceros
– e, em sincera rebeldia,
recusar a desculpa. Não simplificar o silêncio.
Transparecer o que ruge. O que traspassa a experiência.
A (in)justa tensão. A (im)permanência do que não cede.
O clamor nos torna verdadeiros, ambiciosos
– suave exercício de recompensa.
A escrita é também testemunho, ou avesso da história.
Aquilo que os homens intentam,
e o que é indigno de nota:
A nudez que se veste de ficção;
O intervalo da nossa ingenuidade.
Escrever é encontrar a graciosidade e ainda sentir-se (a)traído
pelo que distanciamos; pelo que de nós desejam.
Em mais uma página, sem garantia ou ornamento, o escritor sustenta o que se consegue dizer. E, por um instante, isso basta.

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