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Bruto intervalo

[a literatura é o lugar onde podemos ser sinceros]


Foto: Boston Public Library, disponível no Unsplash
Foto: Boston Public Library, disponível no Unsplash


Um escritor reconhece cedo que a vida, tal como se apresenta, é insuficiente. Austera, sufocante, por vezes medíocre.


Escrevemos em um mundo de fábulas impuras que silenciam nossas impuras palavras. Uma forma de alteridade enviesada, que atravessa a vontade e evidencia a servidão.


A literatura é o lugar onde podemos ser sinceros

– e, em sincera rebeldia,

recusar a desculpa. Não simplificar o silêncio.

Transparecer o que ruge. O que traspassa a experiência.

A (in)justa tensão. A (im)permanência do que não cede.


O clamor nos torna verdadeiros, ambiciosos

– suave exercício de recompensa.


A escrita é também testemunho, ou avesso da história.

Aquilo que os homens intentam,

e o que é indigno de nota:


A nudez que se veste de ficção;

O intervalo da nossa ingenuidade.


Escrever é encontrar a graciosidade e ainda sentir-se (a)traído

pelo que distanciamos; pelo que de nós desejam.


Em mais uma página, sem garantia ou ornamento, o escritor sustenta o que se consegue dizer. E, por um instante, isso basta.

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