Escrever, preservar e perder [traços no tempo e alguns aforismos]
- Rebeca Rasel

- 10 de mar.
- 2 min de leitura

Onde estamos mais vulneráveis?
Numa resposta ansiosa ou na extensão de uma biografia? No instante que passa, em poucos vestígios, ou na tentativa de lhe dar um lugar na duração?
Talvez justamente no gesto de registrar o vivido, confiando à palavra a tarefa de acolher aquilo que o tempo já começa a levar consigo.
Porque nenhum registro é neutro. Pequenas decisões, quase sempre imperceptíveis, atravessam o modo como preservamos aquilo que julgamos digno de permanecer.
Todo texto envolve interpretação e escolha; atravessa uma sucessão de decisões que acompanham nossa tentativa de arquivar o tempo.
Nenhum arquivo é neutro. Entre estantes e bibliotecas, catalogamos também uma forma de olhar, um recorte possível da experiência.
À escrita confiamos a tarefa de pensar o mundo e de fixar a realidade em fragmentos. Ao transpor a experiência para o texto, reconhecemos como memorável aquilo que, naquele instante, parece digno de permanência.
A página torna-se então um traço no tempo: reflexão provisória que, com o passar dos anos, pode revelar como certa época pensava, temia ou imaginava aquilo que ainda estava por vir.
A vulnerabilidade talvez resida precisamente nesse ponto. Ao tentar compreender o mundo, a linguagem também expõe o lugar desde onde o observamos, o meridiano em que cada consciência se posiciona diante do próprio tempo.
A escrita como refúgio; depósito de pegadas, caminhos por excluir.
Preservar é transformar aquilo que se guarda; é perder-se no próprio gesto de preservar.
Com o tempo, registrar o vivido também significa lidar com o próprio arquivo: revisitar páginas, reconhecer deslocamentos e permitir a reorganização daquilo que um dia pareceu concluído.
Todo autor, com o tempo, torna-se também o primeiro leitor e curador do próprio arquivo.



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