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Notas sobre "Cartas a um jovem poeta", de Rainer Maria Rilke

27 de ago.
2 min de leitura




"Resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante."

Paris, inverno de 1903. Franz Kappus, então um jovem cadete que se preparava para seguir a carreira militar, escreve ao poeta Rainer Maria Rilke, por quem nutria grande admiração. Em um momento de incerteza diante do futuro, Kappus procura em Rilke uma orientação para sua própria escrita. A carta dá início a uma correspondência que se estenderia por alguns anos e reuniria reflexões sobre a solidão, o amor, a vida, o ofício literário e aquilo que leva um autor a criar.


Reunida em Cartas a um jovem poeta, a primeira correspondência inicia com a dúvida de Kappus sobre a qualidade de seus versos e termina por colocar em questão a própria razão de escrever. Rilke o conduz de volta a si mesmo, pedindo que abandone as revistas, as comparações, as rejeições dos editores, tudo o que mede o poema pela recepção alheia.


O que a carta devolve ao jovem, no fim, é uma pergunta que ele ainda não havia feito a si mesmo: preciso escrever?


Uma resposta afirmativa passaria a reorientar a existência de Kappus, de modo que até a hora mais indiferente e irrelevante se tornaria um sinal e um testemunho desse impulso. Assumir o “preciso” seria reconhecer aquilo que já estava presente antes da primeira linha.


Entre os conselhos da carta, um permanece especialmente provocador: “Não escreva poemas de amor.” Rilke observa que as formas muito usuais carregam uma longa tradição e exigem força e maturidade para que algo próprio possa surgir. A originalidade nasce do particular, do cotidiano, das imagens dos sonhos, dos objetos da lembrança; o poeta maduro é aquele que encontra, no próprio ambiente e na própria rotina, a linguagem que ainda não existe.



“E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade.”

Lido hoje, Cartas a um jovem poeta provoca reflexões sobre a origem e a motivação da escrita, sobre o desejo de reconhecimento e sobre a necessidade de permanecer fiel a si mesmo, ainda que não haja leitores, publicações ou êxito.


Se ninguém lesse, se ninguém publicasse, eu ainda continuaria a escrever?


A pergunta permanece depois das cartas. A resposta, porém, pertence a quem escreve.




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