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Kafka e a delicadeza das despedidas

Notas sobre o livro "Kafka e a boneca viajante", de Jordi Sierra i Fabra.



Franz Kafka costuma ser lembrado por personagens entregues à culpa, ao abandono, à solidão e ao absurdo. Josef K., Gregor Samsa, o agrimensor de O Castelo: figuras submetidas a um mundo que fere o corpo, o entendimento e a própria vida. Diante da opacidade dos dias, a imagem do escritor acabou por se confundir com esse universo, como se sua literatura encerrasse toda possibilidade de brandura.


Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra, abre uma fresta nesse labirinto.


O romance parte de um episódio situado em 1923, pouco antes da morte de Franz Kafka. Naquele período, já bastante debilitado pela tuberculose, o escritor vivia em Berlim ao lado de Dora Dymant, companheira dos últimos meses de sua vida. Durante um passeio pelo parque de Steglitz, o casal encontra uma menina inconsolável pela perda de uma boneca. Sem encontrar palavras para responder ao choro daquela criança, Kafka inventa uma história que Dora recordaria anos mais tarde, preservando um episódio incorporado à biografia do escritor.


A boneca, explica à menina, partiu em viagem. A curiosidade substitui o desespero, e o silêncio deixado pelo choro abre espaço para uma conversa. Naquele instante, Kafka deixa de escrever para seus personagens e passa a suavizar a dor de uma criança.


Kafka apresenta-se como um "carteiro de bonecas", encarregado de entregar às crianças as cartas enviadas por suas companheiras viajantes. Durante três semanas, regressa ao parque de Steglitz com uma nova carta, transformando uma história improvisada em encontro e expectativa.


Cada carta trazia o relato das aventuras, encontros, descobertas e mudanças vividas pela boneca. Carta após carta, a menina amadurece sua compreensão da companheira ausente. Aos poucos, a boneca deixa de existir apenas como objeto perdido para adquirir outra presença, construída pela imaginação e sustentada pela escrita. Sierra i Fabra preserva a simplicidade desse episódio e faz da correspondência o espaço onde a despedida encontra linguagem e vida.


As cartas de Kafka jamais foram encontradas. O tempo preservou apenas o relato de Dora Dymant. Durante décadas, pesquisadores buscaram vestígios dos manuscritos e da menina que os teria recebido, sem sucesso. Sierra i Fabra transforma essa lacuna em matéria literária, imaginando as páginas desaparecidas e aproximando o leitor de um Kafka raramente associado ao imaginário construído em torno de sua obra.



Nascido em Barcelona, Jordi Sierra i Fabra construiu uma das trajetórias mais expressivas da literatura infantojuvenil em língua espanhola. Autor de centenas de livros, dedicou décadas à formação de leitores, ao incentivo da escrita entre jovens e à criação de fundações voltadas à educação literária. Em Kafka e a boneca viajante, obra reconhecida com o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil da Espanha, transforma um breve episódio biográfico em uma narrativa capaz de aproximar infância, memória e literatura.


Ao encerrarmos o livro, a literatura surge como resposta para aquilo que a realidade já não consegue explicar. A boneca não regressa, a infância segue adiante e as cartas oferecem uma forma de atravessar a perda, permitindo que o afeto encontre continuidade na memória.


Entre processos intermináveis, castelos inalcançáveis e metamorfoses irreversíveis, Sierra i Fabra recupera um episódio que amplia a imagem consagrada de Franz Kafka. O escritor que deu forma à culpa, ao estranhamento e ao desamparo aparece escrevendo cartas para acompanhar a primeira despedida de uma menina. Enquanto a boneca viaja, a menina cresce e as cartas desaparecem, o romance preserva a força dessa correspondência imaginária e recorda que a literatura pode oferecer sentido quando a vida já não restitui aquilo que foi perdido.



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