Cartas e Verdade #1 - A (minha) fé e os clássicos
- Lázaro Floriano

- 24 de jun.
- 3 min de leitura

Eu comecei com os livros. Antes dos filmes. Logo após os desenhos animados.
Antes da minha arrogante pretensão de conhecer a Deus, ou melhor, de deixá-lO me reescrever, eu fui tentar entender os homens, nas entrelinhas dos mestres. Não posso mentir, ou não devo: eles sempre estiveram em meu derredor. Os que, para mim, em termos de arte, decodificaram o coração humano.
É estranho para os que não creem: eles, os grandes escritores, são profetas, de certa forma, a serviço do único Mestre. Falam muitas línguas, vivem em todos os tempos e sabem que não podem se calar. Eles descrevem futuros, moldam culturas, expandem ideias, desfazem guerras civis e particulares. Penso que lhes foi dado o poder do escrutínio.
Lembro-me da minha primeira biblioteca, na Escola Municipal Laura Andrade, em Joinville. Foi lá que eu descobri Os Karas, turminha de amigos investigadores de Pedro Bandeira, na Coleção Vaga-Lume. Eu tinha treze anos, e quase sempre éramos só eu e mais uma moça, se não me engano, Elizabete. Nós trocávamos os títulos toda sexta-feira. Depois veio Arthur Hailey e Overload (Colapso), sobre a indústria de energia da Califórnia no final dos anos setenta, e Jorge Amado, com Tieta do Agreste — nada ortodoxo, mas também serviu de motor para o meu início nos grandes clássicos. Ah! Nesse tempo, tive uma coleção de mais de trezentos gibis do Spider-Man.
Mais tarde, a Biblioteca Municipal Dr. Rolf Colin. Lá eu descobri que as palavras têm cheiro, cor e que não morrem. Quanto mais antiga a edição, para mim, melhor! Entre Guimarães Rosa e Joyce, passando por Dante, Cervantes e Shakespeare, uma pergunta: quem somos nós? Errantes ao acaso ou criados para a Glória de Deus e Sua Justiça?
Depois que eu entendi, depois de quase perder a Esperança e ressurgir, eles não se foram; eles passaram a fazer sentido para mim. Os homens multiplicados sob as diversas vozes, em eras e lugares diferentes, reverberavam o meu mesmo grito de socorro: Leopold Bloom, em Dublin; o Agrimensor K., no Castelo, sabe-se Deus onde; a esposa de Bath, no caminho da Cantuária; Ofélia, na Dinamarca; Raskólnikov, em São Petersburgo; Marcel, em Paris; Meursault, em Argel…
Peregrinando pela fé, descobri que a maior parte dos que creem não os conhece. Não sabem quem são, nunca ouviram falar deles. Mas isso não me foi um choque, apenas uma constatação. E isso é triste. A Escritura, verdade para os cristãos, é poesia, é drama, é alegoria, é história, filosofia, teologia, é a profecia plena. Mas ela não anula os clássicos. Ela os confirma.
Quando decidi readaptar a minha primeira história em Anathema e reposicioná-la, pensei: “Eles estarão presentes, vou citá-los, vou chamá-los.” Vaidade? Não! Eles também somos nós, que, durante as muitas batalhas da vida, na maioria das vezes, ficamos sem saber para onde ir. Alguns se redimem, outros não. A literatura, a verdadeira arte da escrita, não é incompatível com a fé. Dom Quixote talvez tenha mais citações bíblicas que a obra completa de C. S. Lewis, não sei. Dante nos levou às dimensões da Justiça; Ivan Karamázov, em Os Irmãos Karamázov, duvidou, enquanto Sônia leu o capítulo onze de João para o jovem amigo assassino, em Crime e Castigo. Milton descortinou a Queda no Éden; Dickens e o seu amor por Cristo estão claros em Um Conto de Natal...
Deus, que não é uma abstração, sabe, e nós também deveríamos saber: os livros são um remédio, um lugar de descanso, uma guerra e, quem sabe, a paz. Enquanto alguns, atormentados por preconceitos, não entendem que a arte pode estar a serviço do Amor, nós seguimos dizendo: Ele está em toda parte e, até concluir Sua Obra, continuará falando através de quem quiser.
Lázaro Floriano (Joinville, SC, 1981) é formado em Contabilidade e atua na área de logística. Entre cargas e rotas que atravessam o Brasil, encontrou nas palavras um destino. Ao lado da esposa, também desenvolve o ministério de ensino e pregação na Assembleia de Deus, em Chapecó. Seu primeiro livro, Anathema, está concluído e aguarda o momento de encontrar um editor e, com ele, o caminho até seus leitores.


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