Cartas e Verdade #2 - A linha do tempo
- Lázaro Floriano

- 6 de jul.
- 3 min de leitura

Quando instalamos um relógio de parede com pecinhas artesanais na sala do nosso apartamento, a Peewee, nossa gatinha frajola, queria arrancá-lo de lá. Naquela noite, investi um tempo em observar a cena: ela jogava a patinha para tentar pegar o ponteiro que, de vez em quando, passava mais perto de onde ela estava, no encosto do sofá, toda esticada. Ela não conseguiu destruir o relógio, nem pará-lo e não poderia.
Talvez não exista nada mais abstrato, e a ideia aqui era falar sobre cotidiano, mas, pensando bem, faz sentido, pois, convenhamos, não há nada mais óbvio do que o tempo. A Peewee descobriu que poderia ficar ali dias, horas, minutos e muitos segundos tentando impedi-lo de seguir seus passos, materializados no girar de uma peça de plástico, mas logo desistiu. Sábia decisão; afinal, o que vemos não está ali. Alguns físicos dizem que ele não está em lugar nenhum. Mas há um efeito particular.
Ao escrever a primeira linha, em 2012, de um trabalho recém-terminado, olho para o texto e me pergunto: quem foi a pessoa que, de fato, redigiu aquelas palavras? Eu fiquei para trás, circunscrito naqueles dias? Ou sou o mesmo, que só perdeu mais cabelos? Parece fácil responder, mas não tenho tanta certeza. Eu tinha menos leituras, menos experiências, menos fatos consumados, menos paciência, menos frustrações, menos conquistas, talvez mais medos, mais dúvidas... E isso não é sobre mim; trata-se de nós!
Eclesiastes, capítulo 3, versículo 1, postula: "Tudo tem o seu tempo determinado, e há um tempo para todo propósito debaixo do céu." (ACF). Uma das passagens mais citadas da Escritura e, como todas, é até fácil lê-la, mas difícil aplicá-la, entendê-la. Saber que Deus tem, em cada estágio da nossa vida, um plano específico, relacionado ao nosso próprio desenvolvimento, é reconfortante, mas também desafiador. Eu pensei muitas vezes em desistir e sei que você também já pensou. Desistir do quê? De quase tudo. O infortúnio presente nas relações políticas, públicas, privadas e íntimas nos leva a reconsiderar passos, decisões e projetos. E, para além dos clichês, desistir é, sim, uma opção. Olhando pelo caminho, consigo ver colegas, amigos e parentes estagnados, presos às circunstâncias, e todos, sem exceção, com talentos consideráveis em várias áreas da vida.
Mas, se há um tempo determinado, o difícil é compreender o modo, a forma como ele se apresenta. Qualquer guru hoje parece ter uma fórmula, mas ela não existe e depende mais de cada um do que de Deus. Planos são orientações importantes, mas a execução é o que muda contextos. Sou, ou era, não sei, o tipo de pessoa que teoriza tudo e executa pouco. E, mais do que ouvir diariamente que as lamentações não mudam quadros, a complexidade está em remover os obstáculos e começar. E, se existe uma alternância, bíblica, inclusive, para tempos de paz e de guerra, quem somos nós para atribuir nomes aos próprios erros? Demora para entender, demora muito, alguns a vida toda, para reconhecer que de nada temos controle, exceto fazer algo que está ao nosso alcance!
Deus não vai, sabemos disso, fazer o que é minha atribuição. Quando definitivamente parei de enxergar empecilhos, peguei o texto e o continuei até terminá-lo. Mérito? Louros? Não! Mas serviu para eu parar de ficar me perguntando como seria se tivesse um livro acabado. Quantos livros inacabados estão diante de pessoas mais do que capazes de realizá-los? Quantos serão finalizados, de fato? E você sabe que eu não estou falando especificamente de livros. Sabemos que é impossível vencê-lo, o tempo, mas nosso triunfo não se dará tentando parar o ponteiro, igual à Peewee.
No meu caso, ainda que com atraso, o tempo não me impediu de escrever a última linha do meu primeiro trabalho. Vos desejo o mesmo!
Lázaro Floriano (Joinville, SC, 1981) é formado em Contabilidade e atua na área de logística. Entre cargas e rotas que atravessam o Brasil, encontrou nas palavras um destino. Ao lado da esposa, também desenvolve o ministério de ensino e pregação na Assembleia de Deus, em Chapecó. Seu primeiro livro, Anathema, está concluído e aguarda o momento de encontrar um editor e, com ele, o caminho até seus leitores.


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