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Por trás do texto, uma engrenagem de escolhas

8 de set.
3 min de leitura

“Certos escritores, como Stendhal e George Sand, eram absolutamente incapazes de reescrever e corrigir. O caso de George Sand é desconcertante. Ela pertencia à grande estirpe dos prosadores clássicos. Muito ligada a Flaubert, George Sand se surpreendia ao ver o infeliz autor de Madame Bovary transpirar sangue e água, lamentar dia e noite seu martírio, ‘virar e revirar um parágrafo repetidamente por dois dias a fio sem conseguir resolvê-lo’, e forçar seu pobre cérebro a encontrar uma palavra. Diante de tais sofrimentos, George Sand chegava a duvidar de si mesma, cogitando se sua naturalidade para escrever não seria sinal de inferioridade. (…) É interessante notar essa inquietação por parte de uma autora que publicou quase cem volumes.”


Antoine Albalat, no capítulo O Estilo e o Romance.



O que significa tornar-se escritor? Para Antoine Albalat, a resposta envolve talento e vocação, mas encontra no trabalho uma de suas medidas mais concretas. Publicado em 1925, Como se tornar um escritor examina a formação literária a partir de uma pergunta que percorre todo o livro: o que leva alguém a desejar escrever, o que permite transformar esse desejo em literatura e como o trabalho e a leitura amadurecem aquilo que, a princípio, é apenas uma inclinação. A partir dessas questões, Albalat acompanha o escritor tanto diante da página quanto diante do mundo em que os livros circulam — um mundo formado por leitores, crítica, publicidade, prêmios e relações de reconhecimento.


Para o autor, o desejo de escrever antecede a formação de uma linguagem própria, e é na distância entre vocação e talento que começa a se formar o escritor. Albalat distingue as vocações precoces das tardias, observando tanto aqueles que começam a escrever cedo demais, ainda próximos da imitação, quanto os que chegam à literatura depois de anos de tentativas, até encontrar sua linguagem. A leitura participa desse processo como uma das forças que alimentam a vocação literária: o contato prolongado com outros escritores amplia o repertório, organiza o pensamento e desperta o desejo de escrever. A escrita se desenvolve então entre leituras, tentativas e trabalho, até que o texto possa ser preparado para publicação e entrar na vida pública do livro, onde passa a encontrar leitores e a participar das relações que acompanham sua circulação.


Nos capítulos dedicados ao romance e ao estilo, Albalat acompanha o trabalho sobre o texto e as diferentes relações que os escritores estabelecem com a linguagem. George Sand, por exemplo, escrevia com uma facilidade que chegava a fazê-la desconfiar do próprio talento; Flaubert, em contraste, construía seus textos entre refações, rasuras e sucessivas versões. A comparação não serve para definir um método ideal de escrita, e sim para mostrar como o ofício se transforma conforme as disposições de cada escritor e a maneira como cada um trabalha a própria linguagem.


Como se tornar um escritor amplia essa reflexão sobre o ofício para outras dimensões da atividade literária. A leitura retorna como objeto de atenção no capítulo dedicado aos romances que um escritor deve conhecer, agora relacionada à formação do repertório e ao desenvolvimento da escrita. A discussão se estende à erudição e ao livro de história, aproximando conhecimento e literatura, e aos dois capítulos sobre crítica literária, que tratam do julgamento e da recepção como partes da vida de uma obra. A tradução surge como exercício de assimilação e trabalho sobre o estilo, enquanto os capítulos dedicados ao jornalismo e às conferências aproximam a escrita das diferentes atividades por meio das quais um escritor atua e constrói sua vida profissional.


A carreira literária surge, desde o primeiro capítulo, sob uma perspectiva menos idealizada, em que vocação e sucesso estão ligados às condições concretas da vida literária: crítica, prêmios, publicidade, venda de livros e círculos de sociabilidade. O reconhecimento de uma obra se constrói nesse ambiente, e o escritor precisa compreender as forças que atuam sobre seu trabalho para fazê-lo chegar ao público.


Um século depois, os circuitos se transformaram. Os salões literários deram lugar a novos espaços de encontro, a publicidade encontrou outras plataformas e a imagem do autor passou a ser construída em diferentes ambientes. A velocidade com que um livro pode alcançar leitores hoje convive com o tempo lento de sua elaboração, enquanto a multiplicação dos canais de divulgação modifica as maneiras de apresentar, promover e fazer circular uma obra.


Albalat escreve a partir de um mundo literário distante, mas sua atenção às condições que cercam a escrita permanece atual. Escrever um livro continua sendo apenas uma parte da vida de uma obra: depois da página vêm a publicação, a circulação, a leitura e tudo aquilo que se constrói em torno dela. É na passagem entre o trabalho solitário da escrita e a vida pública do livro que a pergunta sobre o que significa tornar-se escritor encontra sua resposta.



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