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Desconfiar de tudo explica alguma coisa? | Por Romulo Vitor Braga


Desconfiar de tudo explica alguma coisa? Por que a crítica ideológica entra em contradição quando se torna absoluta.


A crítica marxista, no seu gesto mais forte, não é simplesmente “discordar” de uma tese burguesa. É suspeitar do chão inteiro sobre o qual essa tese se ergue. Segundo ela, o contexto social condiciona a produção do pensamento. Um pensamento produzido sob condições burguesas tenderá a ser burguês; não apenas no conteúdo explícito, mas nas premissas silenciosas, nos interesses que organizam o olhar, nas prioridades do que aparece como “problema” e do que sequer chega a ser percebido como tal.


Até aqui, a crítica parece incontornável. Mas é justamente nesse ponto, paradoxalmente, que o contorno aparece.


Se o contexto social condiciona o pensamento, então ele condiciona inclusive o pensamento que enuncia a tese “todo pensamento é condicionado pelo contexto social”. A suspeita, ao universalizar-se, volta-se contra si mesma. Se toda consciência é situada, a consciência que denuncia a situação também o é. Está aí o paradoxo: a crítica da ideologia, levada ao máximo, tende a produzir uma autocontradição, porque implica quem quer que tente utilizá-la.


O sociólogo Karl Mannheim (1893-1947) tem o mérito, e uma honestidade intelectual rara (sobretudo atualmente) de não fugir desse abismo. Ele percebe que, se o condicionamento social vale para o pensamento burguês, por que não valeria também para o pensamento revolucionário? Por que a denúncia da ideologia seria imune à própria estrutura que denuncia? Se a lupa acusa distorção em tudo, por qual milagre ela mesma seria pura?


A resposta de Mannheim reside no seu conceito chamado de relacionismo: o conhecimento é condicionado, sim, mas, ao tornar-se consciente dos seus próprios condicionamentos e dos condicionamentos alheios, o sujeito ganharia um modo de “descolar-se” das limitações mais cegas, articulando perspectivas e buscando uma síntese mais honesta do todo. Trata-se de uma tentativa de salvar alguma objetividade sem regressar ao dogmatismo. Mas mesmo essa proposta de Mannheim encontra um limite importante. Tornar se consciente dos próprios condicionamentos pode ser uma condição necessária para escapar da ideologia, mas não é suficiente. E isso por um motivo simples: reconhecer as próprias limitações na busca por uma compreensão autêntica, isto é, não ideológica, não equivale a alcançá-la ou a desenvolvê-la efetivamente. Trata-se de um gesto preparatório, um momento anterior à investigação propriamente dita, e não da investigação em si.


É aqui que o filósofo Leo Strauss (1889-1973), com a metáfora da “Segunda Caverna”, entra com o diagnóstico dessa condição: a mentalidade moderna procura denunciar a ideologia, sem, necessariamente, realizar depois a busca pelo conhecimento.


Essa metáfora atualiza a famosa alegoria platônica para pensar um impasse tipicamente moderno. Se, em Platão, a caverna simboliza a ignorância anterior à filosofia, o mundo das opiniões aceitas sem exame ,a segunda caverna aponta para uma situação posterior e mais sofisticada: aquela em que já se desconfia das aparências, já se denuncia a ilusão e já se reconhecem os condicionamentos históricos e sociais do pensamento, mas sem que isso conduza, necessariamente, à busca da verdade. O sujeito moderno, nesse sentido, já não acredita ingenuamente nas sombras, mas passa a acreditar que não há nada além delas. A crítica permanece ativa, mas perde a direção; a suspeita se instala como ponto de chegada, e não como ponto de partida. A denúncia da ideologia ocupa o lugar do exame das premissas, e o gesto crítico, em vez de abrir caminho, passa a girar sobre si mesmo.


Na minha obra A Segunda Caverna: a modernidade segundo Leo Strauss, procuro descrever esse diagnóstico straussiano do destino da mentalidade moderna como um giro em falso: ao perder um critério que condicione a inteligibilidade do próprio processo de conhecimento, o pensamento corre o risco de girar em torno de si mesmo, combatendo doxa com doxa. Nesse cenário, a crítica, em vez de abrir caminho para a verdade, converte-se em mais um instrumento de luta — um modo sofisticado, e muitas vezes moralmente inflado, de acusar o outro.


A pergunta, portanto, não é apenas “como ser menos ideológico”, mas como retomar um caminho que permita julgar premissas, em vez de apenas suspeitar de biografias, posições sociais ou estruturas históricas. E é nesse ponto que o relacionismo de Mannheim, embora útil como uma espécie de higiene do olhar, pode revelar sua insuficiência: ele descreve condicionamentos, compara perspectivas, organiza um mapa. Mas o mapa, por si só, não nos diz se estamos caminhando na direção do que é mais verdadeiro.


A “solução” sugerida em A Segunda Caverna não é uma fórmula pronta, nem um novo dogma.


Trata-se de um retorno de método. Retomar a metodologia dialético-platônica e, antes dela, socrática, como busca da verdade das premissas. Isto é, recolocar o pensamento sob a obrigação de prestar contas. Não apenas “explicar” de onde veio uma ideia, mas interrogá-la por dentro: que pressupostos a sustentam? O que ela precisa excluir para conseguir parecer evidente? O que ela precisa negar para permanecer de pé?


A dialética, nesse sentido, não é retórica. É purificação intelectual: um procedimento de busca, verificação e exclusão reflexivas de pressupostos.


Não é por acaso que um clima de debate público no qual tudo se reduz à acusação seja o reflexo (ainda que não o único, é claro) de uma cultura metodológica que trocou a ascese à verdade pela denúncia ideológica.


Se o paradoxo da ideologia nos aprisiona numa crítica infinita, a dialética socrática é a tentativa de nos desatar desse nó por uma via mais exigente: não negar que há condicionamentos, mas recusar que eles sejam a última palavra. E, sobretudo, recusar a segunda caverna, essa forma tipicamente moderna de achar que a própria saída é impossível, e então chamar resignação de maturidade.



Romulo Vitor Braga é mestre em Filosofia, editor e autor especialista em conteúdo didático para Ensino Médio e Vestibulares.

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