A ética da Saudade | Por Filipe Celeti
- Vida em Comum
- 28 de fev.
- 2 min de leitura

O que a saudade tem de congruente com a ética?
À primeira vista, nada. A saudade costuma ser tratada num viés psicológico ou literário: algo que acontece ao indivíduo, não algo pelo qual ele seja responsável. Pensar assim é confortável, mas insuficiente. A saudade não apenas ocorre, mas se mantém, se cultiva, se justifica. E tudo aquilo que pode ser mantido e justificado já entrou no campo da ética.
É preciso, primeiramente, precisar os termos. Ética não é aqui um código moral nem um tribunal de culpas, mas uma reflexão sobre formas legítimas e ilegítimas de relação. Ela não julga sentimentos, mas vínculos. Pergunta menos o que se sente e mais o que se sustenta.
A saudade também precisa ser retirada do campo da abstração. Não se trata de simples ausência que se sente, nem de nostalgia. Saudade é a relação entre um sujeito presente e um objeto ausente. Ela não é o vazio deixado pelo que se foi, mas a presença insistente do que continua operando no presente. Sentir saudade é afirmar, ainda que implicitamente: isso ainda vale.
Se a saudade é uma relação, então surge o problema central: há saudades justas e saudades injustas?
Numa perspectiva deontológica, a saudade pode ser entendida como fidelidade. Há experiências, pessoas e compromissos que não podem ser simplesmente descartados sem que algo se perca moralmente. Nesse sentido, esquecer nem sempre é libertação; às vezes, é traição. Contudo, esse dever tem limites claros. Não se deve lealdade a tudo o que foi vivido. O sofrimento causado pela perda não torna o objeto da saudade automaticamente digno. O critério ético não é a intensidade do afeto, mas a dignidade do que é lembrado.
Numa perspectiva consequencialista, a saudade passa a ser avaliada por seus efeitos. Ela amplia ou restringe a capacidade de agir no presente? Fortalece as relações atuais ou as corrói? Há saudades que produzem sentido e há saudades que paralisam, idealizam o passado ou funcionam como recusa do presente. Ignorar isso é romantizar a memória. Todavia, reduzir a saudade apenas às suas consequências imediatas transforma o esquecimento em virtude sempre que lembrar for um incômodo. Portanto, uma ética da saudade não pode ser apenas utilitarista.
Talvez o ponto decisivo esteja na qualidade da relação mantida com o passado. Preservar a memória não é absolutizá-la. Quando a saudade se torna critério último, ela deixa de ser fidelidade e se torna idolatria. O passado passa a julgar o presente de forma tirânica, e a responsabilidade cede lugar ao refúgio.
Toda ética da saudade precisa reconhecer um fato: o tempo é irreversível. A saudade não é ponte de retorno. Ela convive com o irreparável. Lembrar eticamente é reconhecer valor sem tentar ressuscitar, honrar sem absolutizar.
Que tipo de saudade temos cultivado?
E o que ela tem feito de nós?
Filipe Celeti - Professor e editor. Formado em Filosofia e mestre em Educação, é fundador e diretor editorial da Bunker Editorial, onde trabalha na curadoria de obras em educação, filosofia e teologia.
Texto originalmente publicado na Revista Vida em Comum nº 01 [jan/fev 2026]




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