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Confraria #01 | Dois Irmãos, de Milton Hatoum


Em nosso último encontro da Confraria das Amigas – cafés, livros e vinhos, conversamos sobre o livro Dois Irmãos, de Milton Hatoum, nossa escolha de leitura do mês.


A história se passa em Manaus, entre os anos 20 e 70, tendo uma família de descendentes libaneses como foco da narrativa, trazida pelos olhos atentos do jovem Nael, um personagem que cresce nos fundos da casa da família onde vive com a mãe Domingas, de origem indígena, sem saber quem é seu pai.


A riqueza de detalhes da cidade, da região, dos costumes e dos personagens, nos fez mergulhar em uma realidade diferente da que estamos acostumadas, sendo tomadas pela sinestesia envolvida nos aspectos culinários, ambientais e culturais. Quase podíamos sentir o aroma dos temperos utilizados na cozinha, dos peixes trazidos para o almoço, do calor abafado da região Norte, da umidade característica, da alegria das músicas e das risadas, até mesmo dos pesados silêncios na casa.



No centro do enredo, somos tocadas por uma trama de emoções arrebatadoras desde o início, quando o jovem Halim se apaixona pela jovem Zana, quando os filhos gêmeos nascem, quando a família cresce e prospera em meio a muita alegria. Até que a obsessão da mãe pelo filho Omar, que nasce com a saúde frágil, se torna o mote central que desencadeia os conflitos do triste desencontro familiar. Enquanto o outro filho, Yaqub e a filha mais nova Rânia, são praticamente entregues aos cuidados da empregada, Omar vive a sufocante prisão imposta pelos cuidados maternos.


Yaqub acaba sendo enviado para o Líbano para trabalhar com a família de seu pai e volta profundamente mudado, como se alguma experiência traumática o houvesse atingido. Já a filha mais nova, também preterida pela mãe, acaba tomando a frente dos negócios da família e passa a levar uma vida voltada exclusivamente para o trabalho. Omar, por sua vez, vive sem trabalhar, passando as noites fora, sem se preocupar com nada e com ninguém


“Dois Irmãos” não mostra apenas a decadência de uma família, onde cada personagem segue por caminhos distintos, ela traz como pano de fundo a história da cidade de Manaus e todas as mudanças enfrentadas pela região com a modernização e a chegada de novos imigrantes e empresas, fazendo uma intertextualidade com outras obras sobre a região.



Alguns pontos da narrativa foram unânimes quanto ao fato de que poderiam ser mais explorados pelo autor, como a volta de Yaqub do Líbano e os motivos que o fizeram se tornar uma pessoa mais fechada e isolada e quanto ao verdadeiro pai do narrador, o menino Nael. Também sentimos que os parágrafos e os capítulos poderiam ser mais curtos, o que nos daria um respiro necessário para absorver a riqueza de informações das narrativas.


Para a nossa confraria, a história do livro foi extremamente rica, onde cada olhar e cada interpretação destacam diferentes pontos, enriquecendo ainda mais a leitura e a nossa conversa. Saímos de cada encontro certas de que as histórias compartilhadas entre cafés, livros e vinhos, nos deixam com gostinho de quero mais.


Até o próximo encontro!

Patricia Di Lorenzi

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