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Ensaio para um outro embarque


Começamos quase sempre pelo que não contamos.


Há cenas inteiras do nosso passado guardadas como caixas no alto do armário: sabemos o que está ali dentro, mas preferimos não subir na cadeira, não puxar o volume pesado, não espalhar o pó antigo sobre a mesa da cozinha. A lógica do cotidiano — metas, hierarquias, relatórios enviados no último segundo da tarde — imprime em nós um sentimento tardio de vitória, como uma medalha deslocada no peito, empurrando o trauma alguns centímetros para o lado, até que outra experiência ocupe o centro provisório da história. É assim que a saudade aprende a morar nos cantos da casa e da prosa.


Recomeçar é repetir palavras demais; é dar conta do que pesa e de si. É carregar no bolso instruções, fórmulas, tentativas de reorganizar a cena em que deixamos de estar à vontade; é voltar à estação em que o trem passou e ensaiar outro embarque. É guardar histórias em arquivos renomeados, prontos para o silêncio da caixa e a desorganização do pensamento.


Quando penso em desdizer o que vivi, volto às páginas iniciais de um romancista japonês: o cotidiano do bar e o dos discos de jazz, girando como se atrasassem o tempo; a escrita acontecendo entre o turno da mente e o dia seguinte. Na ficção e na vida comum, escrevemos nesse curto espaço entre a insônia e o choro de uma criança. Entre o próprio choro e o café que esfria.


Escrever a vida que se gostaria e a que se tenta desmentir. Escrever com as malas prontas e com o sorriso em estado de espera. Escrever até que alguma coisa aconteça: vida nova, outro texto ou mais um dia.


Abrir o caderno, empurrar o medo. Ouvir o mundo e, quem sabe, descobrir o que não contamos: a saudade e o silêncio; o chão que se retira por alguns segundos; a caminhada que continua no interior da história e da própria vida.


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