Arranhamos o verso, viramos o disco
- Rebeca Rasel

- 26 de fev.
- 1 min de leitura

Podemos começar assim, com uma canção antiga. Uma estrofe breve, onde o passado e a memória que desejamos guardar repousam.
Nostalgia móvel, pulsação. Um batimento que insiste. Que lembra o que vivemos, o que se perdeu, e tudo aquilo que ainda arde em silêncio.
Seguimos em frente. Não porque esquecemos, mas porque a vida em nós cria novas raízes.
Arranhamos o verso, viramos o disco.
O sulco da voz. O peso do arado.
O melhor da vida exige de nós cuidado, tempo, disposição. Desolados, arrancamos terra e fundamentos para, com eles, nos importarmos; simplesmente revolvê-los.
É desse gasto que nascem os encontros; é desse gesto que cultivamos o outro.
Há perdas que nos acompanham. E há também algo que insiste em queimar por dentro. Um sonho talvez ilusório, talvez frágil, como uma estrofe ainda possível, sussurrada. E enquanto algo arde, há vida em movimento.
Um batimento que insiste. Palpite.
O fim de um ano costuma nos confrontar como quem duvida do nosso bem. Como vozes que anunciam que já não há solo fértil, que o esforço não compensa. Mas a terra sabe esperar. E nós também. Mesmo cansados, seguimos. Recolhendo pedras e flores às margens de uma canção, de um canteiro. Porque acreditamos. Em uma antiga canção. Em um fundamento que permanece.
Que o ano novo chegue assim: como discografia sem fim; como quem, apesar de tudo, simplesmente confia.



Comentários