Por uma fotografia dos dias
- Rebeca Rasel

- 8 de mai.
- 2 min de leitura

Como a fotografia, a escrita revela um primeiro estado de elaboração do mundo. Ambas partem de um fazer técnico, de operações que não reproduzem o real, mas o transcodificam em superfície. Assim como o sal de prata fixa a incidência da luz sobre o filme, a escrita organiza a incidência do olhar, da memória e da percepção sobre a linguagem. A inscrição de um mundo, e de seus desvios.
A fotografia não captura o real; converte processos em cena. A escrita opera passagem semelhante ao traduzir experiência em estrutura, duração em forma, acontecimento em superfície legível. Negativo, página, código; traduções, espelhamentos, desvios. Superfícies onde a vida é temporariamente retida antes de desaparecer.
Quase nada se distingue entre imagem, gesto, exposição e tempo. A forma surge devagar, como se atravessasse uma zona intermediária entre o vivido e o visível. Em suspensão, um novo mundo se deposita nessa pele instável e imprecisa, em repetição deslocada, entre dissolução e permanência.
A escrita avança em lenta continuidade, frase após frase, singrando a densidade do suporte e a fissura da própria vida. Em seu papel fotográfico, o texto não restitui a experiência. Como um ensaio atravessado pela luz e pelo entalho, reorganiza relações, cortes, fissuras e superfícies possíveis.
Toda escrita pressupõe exclusão, assim como toda fotografia depende de um ponto de vista. Controle, reconhecimento, ajuste, recorte, arado. A delimitação da superfície retorna como operação incontornável. Nada se oferece por inteiro; transcrições, acontecimentos, fendas, feridas, aquilo que se perdeu do autor e do filme.
Algo permanece fora, algo se fixa entre a fotografia e a escrita. Impermanência, promessa, impossibilidade, consciência. O desejo de vencer a perda, ou apenas de tatear a fenda que separa a inscrição de seu vestígio.
Referência: Vilém Flusser - Filosofia da Caixa Preta: Ensaios Para uma Filosofia da Fotografia


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