O império da narrativa e a crise da alteridade - Entrevista com Sócrates Nolasco, autor de "Não matarás"
- Rebeca Rasel

- 7 de abr.
- 9 min de leitura
Uma entrevista com o psicólogo e pesquisador Sócrates Nolasco sobre seu livro Não matarás e os fundamentos psicológicos e culturais do antissemitismo.

O que leva sociedades ditas civilizadas a reiterarem padrões de exclusão e violência simbólica? Para o pesquisador e psicólogo clínico Sócrates Nolasco, a resposta não se esgota na análise política, mas reside nos fundamentos psíquicos da cultura. Em sua obra "Não matarás: as raízes históricas do antissemitismo e seus reflexos nos dias de hoje", Nolasco propõe que o ódio ao "Outro" opera como uma estrutura de projeção, uma tentativa desesperada do sujeito de eliminar no mundo externo aquilo que não suporta em sua própria subjetividade.
Vivemos sob a égide de uma "fúria discursiva" onde a narrativa parece ter sequestrado o fato. Nesse cenário, o indivíduo contemporâneo, órfão de palavras para simbolizar o gozo e a angústia, transmuta o afeto em ato. Quando a linguagem falha em nomear o real, a violência surge como alternativa à interdição. A conversa que se segue amplia essa reflexão, investigando como o desejo, os vínculos frágeis e a negação da castração moldam as tensões da atualidade.
Nolasco desconstrói a mecânica do ódio seletivo e alerta para os perigos de uma razão instrumental que, desatada da ética e da materialidade da vida, torna-se ferramenta de dominação. Em um mundo de conexões virtuais infinitas e "estéticas fakes", o autor nos convida a um rigoroso exame das patologias sociais, questionando por que o reconhecimento da alteridade se tornou o maior desafio civilizatório do nosso tempo.

Tema 1 | Ao longo da sua carreira, o senhor tem se dedicado a estudar temas como os vínculos humanos, a violência simbólica e as tensões da sociedade contemporânea. Como surgiu esse interesse por compreender esses fenômenos? E como a psicologia se tornou também um caminho para refletir sobre questões culturais e filosóficas?
Sócrates Nolasco: A sociedade contemporânea foi invadida por uma profusão de discursos que tentam derrotar o fato, como se pudessem substituí-lo pela força de uma determinada narrativa. Neste caso, o fato se impõe como expressão da alteridade e da impossibilidade de se desvencilhar dela. Esse fenômeno sempre me despertou interesse.
A vida nos pressiona mais quando nos faltam palavras para nomear o que há dentro de nós, quer seja sob a forma de gozo, angústia ou castração. Nesse caso, quando faltam palavras para se articularem ao fato, a imaginação voa livre, como se pudesse se desvencilhar de vez do real. Quando li O Corpo Erógeno, uma obra de Serge Leclaire, intrigou-me o modo como ele diferenciou o gozo do prazer, indicando que a castração protege o sujeito do risco de ser engolido pelo gozo do Outro, permitindo que ele se descole deste último para se tornar proprietário de si mesmo. Para o discurso, o fato representa a castração. Quando falta a palavra, o ato surge como alternativa. Foi a primeira vez que tive contato com o que, posteriormente, se tornou meu objeto de interesse: entender o desejo a partir da base que o constitui — o vínculo que estabelecemos com o Outro e os motivos inconscientes envolvidos nessa empreitada. Se há vínculo quando faltam palavras, o corpo consegue conter as angústias. Quando falta o vínculo, nós nos ressentimos, odiamos e nos irritamos, tentando submeter o fato que gera mal-estar ao nosso desejo.
O desejo é, antes de tudo, uma experiência encarnada que depende do vínculo para se realizar. Ele não se limita ao plano das ideias, dos discursos ou das abstrações, mas está enraizado em nossa própria corporeidade e existência. É uma força que faz parte do inconsciente humano e se manifesta nos sentimentos, nas ações e na forma como nos relacionamos com o mundo. Esse aspecto encarnado do desejo revela como ele está ligado às experiências vividas, tornando-se um elemento central para compreender a qualidade dos vínculos humanos, as tensões sociais e os conflitos presentes na sociedade contemporânea. Os vínculos modelam a experiência subjetiva, alcançando o desejo e o comportamento humano.
Comecei analisando os motivos que levavam os homens a se envolverem mais em situações de violência do que as mulheres. Quais contradições essa situação indica? Que ambivalências fazem parte dela e incidem sobre o sujeito quando lhe faltam palavras para nomear o que se passa consigo mesmo? Não creio que isso seja estrutural, pois quando a violência não é simbolizada, ela pode se transformar em ato. A solução encontrada para isso foi feminilizar os homens, o que de fato não é uma solução, mas uma tentativa de escapar à castração, impondo sobre a marca da diferença uma interpretação discursiva criada para ela. Desse modo, a Psicanálise se tornou uma referência para eu pensar o vínculo, a cultura e a violência.
Tema 2 | No livro "Não matarás: as raízes históricas do antissemitismo e seus reflexos nos dias de hoje", o antissemitismo aparece não como um fenômeno político ou histórico, mas como uma estrutura social com raízes psicológicas profundas. Como compreender a permanência desse ódio que atravessa diferentes épocas e sociedades?
SN: O ódio ao judeu só se preserva se tiver alguma função para o sistema social em que esse fenômeno ocorre. A esse respeito, houve um tempo em que foi funcional pensar que a Terra estava no centro do universo e que o Sol girava em torno dela. Esse discurso ocupou o lugar do fato e foi hegemônico em relação a ele. A castração protege o sujeito, mas também o frustra ao mostrar que o discurso, muitas vezes, é uma ilusão. Por meio dos mitos, os gregos retrataram como a experiência da castração marca o Eu desejante. Aparentemente, o filicídio seria a ilustração desse processo. Todavia, quando analisamos o parricídio, percebemos que eliminar o outro — seja na condição de filho ou de pai — nos dá a dimensão de como a castração está imbricada no desejo e o quanto o sujeito tenta se livrar dela, mergulhando em uma cegueira inconsciente, como aconteceu com Édipo. A marca da Lei e os esforços para se livrar dela nos aproximam dos motivos que alimentam o antissemitismo. Os judeus foram aqueles que trouxeram as Leis que chegaram até os dias de hoje. Outras leis podem ter existido antes deles, mas desapareceram. Desde a pecha de "assassinos de Jesus", passando pelo mito do martírio de crianças e do uso de sangue ritual para fazer o pão ázimo, até os discursos atuais sobre Gaza, percebo que a ausência de consistência, a falta de reflexividade e a predominância da fúria discursiva caracterizam o discurso antissemita. Afinal, é por meio dessa fúria que este discurso crê que poderá se sobrepor aos fatos que o contradizem.
Tema 3 | Em sua análise, o ódio ao Outro muitas vezes nasce de conflitos que o próprio indivíduo não consegue reconhecer em si mesmo. Qual o papel da psicologia na compreensão desse mecanismo? E quais são os efeitos sociais quando essa projeção passa a estruturar as relações coletivas?
SN: A repetição, a obsessão e a intensidade presentes no antissemitismo o tornam um fenômeno que precisa ser investigado com mais rigor e profundidade. Nenhum outro fenômeno segue esse padrão. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) estima que existam cerca de 120 a 130 conflitos armados ativos no mundo. Essa contagem é mais ampla porque inclui guerras civis de longa duração e lutas contínuas entre governos e grupos armados organizados. No entanto, quantos deles conseguem receber a mesma atenção que a mídia confere a Israel? Ucrânia, Sudão, Mianmar, Mali e Burkina Faso parecem inexistir perante a opinião pública internacional. Esse é um fator que não deve ser descartado. O que orienta essa seletividade não está na ordem dos fatos externos, mas dos internos. Investigar quais mecanismos psicossociais estariam envolvidos nesse tipo de arranjo requer o manejo de instrumentos que não pertencem à ordem objetiva do mundo. Suspeitar dos mecanismos inconscientes e identificá-los pode auxiliar a perceber que o ódio ao judeu tem sido usado para dirimir os impactos causados por vínculos sociais frágeis sobre o Eu. Isso aconteceu em vários momentos em que o antissemitismo eclodiu. Projetar no mundo o que transborda de dentro de si tem funcionado temporariamente para um Eu que desconhece sua própria origem, seu funcionamento e seu desejo.

Tema 4 | O livro dialoga com pensadores como Sartre, Adorno, Horkheimer e Hannah Arendt, que refletiram sobre a relação entre razão, ideologia e violência. O senhor argumenta que até mesmo a razão pode se tornar instrumento de dominação quando perde seu vínculo com a ética. Como essa reflexão se atualiza no mundo de hoje, em um contexto em que muitas discussões públicas se tornam cada vez mais polarizadas e marcadas pela hostilidade?
SN: A razão pode se tornar uma ferramenta de controle e dominação, particularmente quando se afasta da verdade. Adorno e Horkheimer argumentaram sobre isso na Dialética do Esclarecimento. Nesse aspecto, quando a razão se deixa instrumentalizar, a técnica se apropria dela, pondo-se a serviço do controle do pensamento, tal como acontece nos movimentos de massa. Trata-se de um controle mais sofisticado do que o controle político, pois, uma vez conduzido pelo desejo, não se submete a limites e assume os discursos humanitários como disfarce. A mercadoria, seja ela qual for, substitui o sujeito, aspirando ao seu lugar e dando início a um novo ciclo de desumanização — só que, agora, aceitável e sem resistência. Um dos exemplos desse processo é encontrado nos movimentos que se autointitulam libertários. Quando se chega a esse ponto, a eliminação do Outro foi ratificada para instituir uma ética paradoxal: a do desejo onipotente, onisciente e onipresente.
Seguindo por esse caminho, nega-se a importância do Outro na fundação do sujeito, como se fosse possível substituí-lo por uma mercadoria. Mercadoria é tudo aquilo que aspira substituir a verdade encarnada nos fatos para tentar se passar por ela, como se fosse possível substituí-la. Dito de outro modo: em nome de uma estética fake, o plástico tenta substituir a carne para derrotar a Lei.
Por outro lado, o antagonismo radical hoje presente na sociedade é consequência do esforço feito pelo sujeito para se apropriar do lugar simbólico da Lei e instituir outro tipo de organização social, no qual vigora um "nós" contra "eles". Portanto, abandona-se a ideia de que "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança" para adotar outro registro, no qual o homem faz o homem à sua imagem e semelhança. Na derrocada do simbólico reside o declínio da metafísica e da ética que marca a relação com o Outro. A existência do Outro tem sido negada como princípio fundador da existência humana, passando a se transformar na principal fonte do mal-estar social, a exemplo do que acontece no antissemitismo.
Nesse cenário, acredita-se que a linguagem, os discursos e as palavras deem conta da extensão e da profundidade da existência humana. Mas sabemos o quanto isso é falso. Há mais existência do que palavras para nomeá-la.
Tema 5 | Um dos pontos centrais do livro é a ideia de alteridade — a capacidade de reconhecer o outro em sua diferença, afirmando-o como igualmente humano. Como pensar a reconstrução dessa referência em uma sociedade que, progressivamente, se distancia da dimensão ética do reconhecimento do outro?
SN: A reconstrução da ética, creio eu, passa por um resgate da pluralidade de fato, que foi substituída por discursos hegemônicos, mantidos pela antagonização a tudo aquilo que os desafia a dar provas de consistência. Nesse cenário, o Outro foi substituído por discursos autoritários, passando a ser falado através das causas defendidas por eles. São tantas causas que o sujeito que nelas aparece é pura virtualidade entre as vítimas. Além disso, há uma concorrência para ver qual desses discursos representa a maior das vítimas. Nos dias de hoje, a ética precisa se reconciliar com a materialidade da vida. Darwin dizia que “quem compreende os babuínos fará mais pela metafísica do que Locke”. Ele não está errado. A ética deve ser moldada pelo chão que pisamos e pelas ferramentas que usamos para transformar o mundo. O antissemitismo caminha na direção oposta. Por exemplo, as imagens dos judeus veiculadas dentro do discurso antissemita foram tiradas de fantasias; nelas não existem provas de materialidade, mas são replicadas como se existissem. É preciso resgatar a capacidade de o indivíduo se vincular a outros através de fatos, não apenas por identificação, mas por um real sentido de comunhão.
Tema 6 | Qual a principal reflexão que espera despertar nos leitores de "Não matarás"?
Por que, nos dias de hoje, ainda é aceitável o ódio seletivo?
Entre os valores que devem nortear a vida, não pode faltar a preservação da existência do outro, garantida pelos limites morais que dão suporte às nossas ações. Há muitas maneiras de ler um texto sagrado. Por exemplo, quando Deus pede a Abraão para sacrificar seu filho, podemos compreender essa passagem de diferentes formas; uma delas indica que a resposta poderia ser: para que um homem que se considera tão bom e correto possa saber do que é capaz de fazer em nome de sua fé. Quando Deus percebe que Abraão levaria a termo o que lhe foi pedido, Ele intercepta o ato e salva Isaac do sacrifício. Dependemos da interdição para deter aquilo que desconhecemos em nós e que pode pôr em risco o que há de mais valioso. Nesse contexto, respondendo à sua pergunta, "amai-vos uns aos outros" deixa de ser uma afirmação sentimental para expressar dignidade com a vida. Esse é um dos maiores desafios humanos, pois convoca o sujeito a elaborar seu desejo de eliminação do Outro, em vez de atuá-lo na vida.
Sobre o autor: Sócrates Nolasco é psicólogo clínico, pesquisador e professor, graduado em Psicologia Clínica em 1983. Atuou em hospitais, escolas, empresas e penitenciárias, dedicando-se a compreender o enfraquecimento dos vínculos humanos na sociedade contemporânea: um sintoma da mercantilização das relações, com impactos deletérios na formação de laços afetivos e sociais. Autor de cinco obras e mais de cem artigos no Brasil e no exterior, é membro titular da Academia Brasileira de Filosofia e consultor da American Psychological Association. Desenvolveu projetos de pesquisa no mestrado e doutorado em Psicologia Clínica, depois publicados em livros. Em Não matarás, investiga as raízes do ódio ao judeu, a recusa ao princípio da alteridade e outras formas de violência simbólica, elaborando um convite urgente à reconstrução dos vínculos humanos e à empatia perante a desumanização.




Comentários