A arte da edição e a vida entre livros
- Paula Cajaty

- 27 de fev.
- 2 min de leitura
[Ou como ser um editor de livros em um mundo que caminha para a oralidade]

Um dos primeiros livros que conheci sobre a arte da edição foi o “Memórias de um editor”, do Kurt Wolff, editor de Franz Kafka, Heinrich Mann, Georg Trakl, Franz Werfel, Carl Sternheim, Karl Kraus, Robert Walser, Gustav Meyrink, no período explosivo da Alemanha entre guerras. Se em 2006 a minha preferência declarada era pelas obras da Companhia das Letras e Alfaguara, desde 2013, praticamente junto com o surgimento da Jaguatirica, eu continuava a montar a minha biblioteca pessoal com outras edições, muitas delas da Cosac e da Âyiné, entre as editoriais mais sofisticadas do Brasil.
Depois seguiram-se outros, como “A marca do editor”, de Roberto Calasso, um ensaio sofisticado e fundamental sobre a literatura, a arte de publicar e a relação entre o livro e o mundo, “A vida dos livros : Autor e editor na experiência editorial”, da experiente escritora, poeta e editora Thereza Cristina Rocque da Motta.
“Correio literário: ou como se tornar (ou não) um escritor”, da Wislawa Szymborska, foi um texto divertido - porém, por vezes um pouco cruel - das suas respostas aos incautos escritores que enviavam-lhe textos com a esperança de serem publicados e ingressarem no mapa literário e cultural polonês.
Um livro que não teve a ver com edição, mas também tangencia a vida dos escritores, divertidíssimo, foi “O mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgákov, com as narrativas das intrincadas dinâmicas sociais de um clube literário e da sua correspondente revista literária, em plena Moscou stalinista.
Se muitos atualmente se perguntam “é possível viver de livros?”, a sugestão é inverter a pergunta: “é possível viver sem livros?” e testar a resposta. Considerando que a nossa inteligência é limitada e a IA reúne muito mais sabedoria do mundo, fui lá formular a pergunta no ChatGPT, e ela (assumi, deliberadamente, que é uma mulher) me responde com uma outra pergunta, ainda mais profunda:
Tecnicamente, sim, é possível viver sem livros. Mas a questão mais interessante talvez seja: que tipo de vida seria essa?
Longe das escritas criativas e das oficinas de escritores, uma boa surpresa eu tive quando recebi um livro do Álvaro Filho, ainda não publicado em Portugal (e que ainda estou em campanha para conquistar), que retratou, fielmente, o que acontecia no interior dos workshops presenciais de aspirantes a escritores. Para quem quiser buscar o título no Brasil, ainda é possível comprá-lo na edição da CEPE: “Curso de escrita de romance - nível 2”.
Editar livros é, mais do que tudo, encontrar pessoas e abri-las, lidar com as suas expectativas e desejos mais profundos. Nem sempre de fama, mas talvez, da notoriedade, da intransitoriedade, da vontade extrema de permanecer no mundo e continuar uma conversa que possa nunca ter fim.



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