Os resultados expectáveis de uma publicação de livro
- Paula Cajaty

- 27 de fev.
- 7 min de leitura
Atualizado: 1 de mar.
[Algumas coisas que aprendi escrevendo e editando livros]

Há muitos escritores-coaches, atualmente, que no afã de vender seus cursos, prometem mundos e fundos para os escritores que sigam as suas orientações. A publicação de um livro é, antes de tudo, uma realização pessoal e a concentração de um saber que, distribuído amplamente, vai ajudar outras pessoas a se compreenderem, ou a compreenderem melhor o mundo em seu entorno.
Um livro literário trará leituras com benefícios ao nível da saúde mental e da expansão da consciência, do olhar pelos olhos do outro, do sentir e se emocionar com os sentidos do outro. Um livro de ensaio trará leituras com conteúdos que são originados de vidas de estudo e investigação. Ler livros é multiplicar o seu conhecimento e o seu tempo de vida, através do conhecimento dos outros.
Então há promessas que um editor, ou um orientador de autores, pode fazer, e que possuem 100% de chance de serem cumpridas. E há promessas que não devem ser feitas, sob pena de aumentar a expectativa do jovem escritor e, com a expectativa aumentada, o risco da decepção.
O que um editor pode, de modo confiante, prometer a um autor estreante?
1. A sua realização pessoal
Lançar um livro é cumprir uma etapa de vida, é condensar em um objeto físico algo puramente imaterial e ideal, que passa a existir só porque você está vivo, e porque você é você. É mesmo como ter um filho: uma obra criada de um milagre, o milagre de você estar vivo, de você ter saúde, de ser um ser senciente e ter sentimentos para compartilhar com o mundo. Aqui, um editor pode prometer que o autor terá 100% de realização desta promessa.
2. Reconhecimento e prestígio
Lançar um livro, em um contexto profissional, é uma etapa que adiciona qualidade ao seu currículo. Você deixa de ser um profissional simples, para ser um profissional que documenta os seus desafios, que compartilha as suas conquistas e descobertas. Colocar-se neste lugar permitirá a você sentar em igualdade de condições com outros profissionais-autores, e estar em um novo patamar de respeito e interação intelectual. Ainda que publique a sua tese de doutorado, e meia-dúzia de especialistas sejam capazes de compreender o seu texto, a inclusão da publicação poderá lhe trazer mais pontos no currículo Lattes, mais pontuação para a candidatura a um cargo ou bolsa de estudos. Também neste ponto, o editor pode garantir que o autor terá 100% de realização desta promessa.
3. Legado
Se não fosse a Jane Austen, não saberíamos hoje como eram as relações e os detalhes dos espaços cotidianos da era Vitoriana na Inglaterra. Escrever a sua história, ou a história do seu tempo, entendido este como algumas gerações anteriores à sua e o registro das questões atuais da sua geração, nem que seja a criação de um livro de culinária das receitas mais famosas da sua família, ou uma saga familiar, ou um acervo fotobiográfico sobre um pequeno clube de futebol, é deixar um legado para as futuras gerações. Neste ponto, o editor poderá garantir que o autor terá 100% de realização desta promessa.
4. Satisfação emocional
Escrever em um computador, enviar um arquivo Word para uma editora, e ver o livro ganhar vida nas mãos de profissionais habilitados, com o seu nome na capa, com os agradecimentos às pessoas mais queridas da sua vida, o seu trabalho de vários anos ali condensado, ou o conhecimento que você adquiriu sobre uma determinada área de especialização, é uma experiência gratificante. É como um presente que é dado a você, e que depois você o concede ao mundo. E o mundo fica, em alguma medida, impactado por esta nova obra e depois retornará a você com belas avaliações e outras reflexões sobre o seu trabalho. A psicologia não seria nada, hoje em dia, se Sigmund Freud não publicasse as suas descobertas em extensos livros nos quais documentou suas técnicas e seus achados no campo da mente humana. Aqui, também, o editor pode garantir que o autor terá 100% de realização desta promessa.
5. Melhora da autoestima
Concluir um livro é mostrar ser capaz de realizar um projeto, do início ao fim. Começar da primeira linha, da primeira palavra. E seguir em um planejamento, que pode ter altos e baixos, que pode ter surpresas e desafios, e chegar ao final do seu plano, com aquilo que foi possível realizar, é uma prova de capacidade. Muitas pessoas escrevem o seu percurso depois de uma doença grave, ou depois de uma separação, ou depois da morte de um ente querido. Escrever é capaz de permitir uma catarse intensa, através da qual o escritor se conhecerá mais, e ajudará outros a também mergulharem nos seus universos particulares. E isso traz a melhora da autoestima, automaticamente, pois você foi capaz de criar algo, de conquistar algo, de realizar um projeto complexo e difícil. O editor, caso te garanta isso, também poderá atingir 100% desta promessa.
6. Expansão de influência social
Muitos escritores são introvertidos e usam a escrita como válvula de escape. O livro é uma excelente forma de trabalhar a si próprio e, paulatinamente, ficar mais à vontade ao encontrar pessoas com os mesmos gostos, os mesmos hobbies, as mesmas visões de mundo. Um escritor “nerd” de fanfic poderá ser introvertido em sala de aula, mas extremamente expansivo em um encontro de escritores de fanfic, pois ele compreende que pode inspirar, ensinar ou transformar a vida de outras pessoas, e percebe-se mais à vontade e com mais autoridade a exercer o papel social de escritor. Um escritor pode ser feio, esquisito, velho, cheio de manias. Até é bom que o seja, pois isso o tornará mais singular e único, e estas características vão estar representadas na sua escrita. Neste ponto, também, o editor poderá garantir 100% de cumprimento desta promessa.
7. Potencial de ganhos financeiros
Quando chegamos neste ponto, os editores não podem garantir “ganhos financeiros”, mas somente um “potencial”. A média de vendas de um livro autopublicado é de aproximadamente 250 cópias (fonte). Apenas cerca de 1% dos livros autopublicados vendem mais de 10.000 cópias (fonte). Logo, se você está a publicar um livro, sendo um jovem escritor, poderá acreditar que tem um “potencial” de ganhos. Mas é um potencial limitado. Ao mesmo tempo, os livros autopublicados representam 31% das vendas de e-books na Amazon. A Amazon paga anualmente cerca de 520 milhões de dólares em royalties a autores autopublicados (fonte). Isso significa que você pode encontrar mais alguns trocados para comer pizzas e ir a um cinema no meio da semana. Mas não deve pensar em largar o seu emprego para se dedicar somente às artes da escrita, exceto se uma tendência realmente firme e volumosa de fluxo financeiro se apresente na sua vida. O editor que prometer que você irá “ganhar dinheiro” vendendo livros, tem apenas algo entre 1% a 10% de chance de cumprir esta promessa, e isso, apenas se você trabalhar incansavelmente na promoção do seu livro e da sua biografia.
Uma outra questão é que escritores acham que lançar livros é criar “renda passiva”. Não é. Publicar o livro é uma coisa. Escrever, revisar, aprovar a boneca, receber a caixinha com livros, marcar a data do lançamento. Isto garantirá as primeiras vendas. Mas elas são tímidas. Divulgar de modo constante é o trabalho que começa a ser feito assim que o livro está com as artes aprovadas para a gráfica, e é um trabalho de construção de marca pessoal. Segundo entrevista do Daniel Priestley (fonte). Stephen R. Covey, autor do livro “Os 7 Hábitos das pessoas altamente eficazes” conquistou USD 20 milhões em vendas do livro, mas USD 400 milhões em vendas do seu sistema de cursos e mentorias. O livro é apenas um apoio a um plano maior: construir um trabalho consistente na área que você seja excepcional e possa se destacar da multidão.
8. Oportunidades profissionais
Se o seu editor prometer que o livro pode abrir novas oportunidades, ele tem 100% como garantir isso. Sem o seu livro, não há muito como justificar porque você é a melhor pessoa para ministrar palestras especializadas, para vender planos confiáveis de consultoria e mentoria, para conquistar colaborações, parcerias ou novos negócios. Mas, obviamente, não é porque você lançou o livro no dia 10 de abril, que no dia 11 de abril, jornalistas estarão a te ligar, ou empresas de palestras corporativas estarão a convidá-lo para palestras altamente remuneradas. Isto é o seu trabalho: promover a si e à sua obra, diariamente. O editor é apenas aquele que publica o seu livro, não é o seu empresário pessoal, não é o seu divulgador, o seu assessor de imprensa, e muito menos o seu secretário para todas as finalidades de melhoria profissional.
9. Qualidade de vida
Lançar um livro é extremamente prazeroso, pois com o livro, você está a trabalhar com o que ama, empenha-se em um projeto com significado pessoal e que vai colocá-lo em outro patamar perante a sua família, os seus amigos, o seu círculo social. As pessoas vão respeitá-lo mais, vão desejar conhecer o conteúdo que você entrega para o mundo. Escrever um livro eleva a qualidade de vida, traz consciência e prazer para o cotidiano, pois nada melhor do que conversar com um entrevistador sobre aquilo que faz o seu olho brilhar. Juntar os três vértices da pirâmide da realização pessoal é a meta: no primeiro vértice, a sua paixão pessoal; no segundo vértice, fazer aquilo em que você é expert; no terceiro vértice, fazer algo que as pessoas valorizem muito, e remunerem bem pelo seu trabalho, conhecimento e tempo. Quando você juntar esses três vértices, terá atingido o sweet spot, o ponto ideal, juntando prazer, expertise e dinheiro. Com essa meta em mente, você vai acordar mais energizado e empenhado em fazer acontecer. Um editor que prometa o aumento na sua qualidade de vida, poderá garantir 50% desta promessa.
10. Melhora na saúde mental
Por fim, chegamos no ponto da saúde mental. Muitas pessoas usam a escrita como forma de exorcizar os seus demônios, tratar as suas obsessões, libertar-se de amarras e situações do passado que não foram bem trabalhadas. “Ainda estou aqui”, livro que virou filme, foi a expressão escrita de Marcelo Rubens Paiva a homenagear a sua mãe, uma forte mulher, que era apenas uma dona de casa com o segundo grau, que suportou uma tragédia familiar - o sumiço do marido político durante a ditadura - e precisou criar cinco filhos sem ter dinheiro, nem uma qualificação profissional. O filme é emocionante e revela como muitas famílias enfrentaram os horrores da ditadura no Brasil, assim como “Argentina, 1985”, um filme argentino, expôs a gravidade da atuação dos agentes públicos na ditadura argentina. O livro permite usar a escrita como forma de terapia, expressão e libertação emocional. Também aqui, um editor pode garantir que o autor terá 100% de melhora na saúde mental, sem chance de errar.




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