Cartas e Verdade #3 - Deus na Diamantina

2013.
A cidade de origem da viagem era Barreiras, no extremo oeste da Bahia; a de destino, Irecê, no mesmo estado. A condução: um ônibus. Eu sempre me sentava à janela, escolhia a dedo a poltrona, sempre que podia, para poder ver o mundo, que, para mim, era novo. O trabalho de auditor em uma transportadora de rotas de longa distância (Sul-Sudeste / Norte-Nordeste) me concedia o privilégio de ser uma testemunha ocular do que eu, até então, só via pela TV.
Naquela tarde, não havia nada de extraordinário. Um dia comum entre cidades, saindo e entrando de hotéis. Malas a tiracolo, um celular velho com algumas músicas em MP3 e, claro, meus livros. Eu tinha o costume de deixar a cortina bem aberta e tirava fotos esporádicas das paisagens mais bonitas. Afinal, era o Brasil por dentro, lindo como sempre e extraordinário como poucos.
Mas, naquela rota, havia algo diferente me esperando. Passando por Ibotirama, sobre a ponte do Velho Chico, terra por onde Carlos Lamarca peregrinou pouco antes de encontrar seu destino, seguimos até Seabra e, depois, para o norte pela BR-122. Por ali, oficialmente, já não é mais o Parque Nacional da Chapada, mas, para mim, talvez hoje já não faça diferença. Pois foi naquele trecho do interior do país que eu tive a constatação absoluta de Deus, de Sua manifestação quase física sobre a Terra.
Com o olhar fixo a oeste da vida, por volta das dezoito horas, deparei-me com o mais imponente, belo e impressionante pôr do sol que eu já tinha, até então, testemunhado. Imediatamente, o versículo um do Salmo dezenove veio à minha mente: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das Suas mãos.”
Não era uma pintura impressionista, nem expressionista. Era um trabalho sobrenatural. As cores do astro encontrando a terra não existem em aquarelas, não podem ser reproduzidas. Sei que há os que duvidam, mas Ele estava ali, apontando na direção de algo que eu não podia descrever. Ele não é o sol, não é o vento, não é a Diamantina, mas, em mim, foi como um abraço; um homem ficava ali, nos metros percorridos na estrada, e outro surgia para seguir em frente e entender que podemos ser transformados de muitas maneiras, mesmo nas improváveis.
Anos depois, usei a imagem daquela tarde para posicionar algumas cenas importantes do meu livro. Um dos capítulos seria denso, difícil, e então eu tentei diluir a angústia presente na conversa entre mãe e filha na beleza violenta de um fim de tarde e, depois, na noite fria. Ou seja, um cenário transitório que se reproduziria no coração de uma delas. Não somos alquimistas; criamos a partir do que vemos, e isso não pode ser desperdiçado. Revisando o romance algumas vezes e me deparando com a lembrança, tudo fazia sentido, no livro e na vida.
Eu perdi as fotos daquela tarde. Um HD velho queimou, depois o pendrive, mas existe algo que não desaparece, nunca foi embora e, quando penso que os dias são maus, difíceis, Ele me recorda daquele ocaso em que veio a meu encontro, me abraçou e me disse, sem falar: “Eu sempre estive aqui, ao seu lado.” Não sou especial, não tenho privilégios, mas me permito o direito de crer que foi verdade, ao menos para mim.
Lázaro Floriano (Joinville, SC, 1981) é formado em Contabilidade e atua na área de logística. Entre cargas e rotas que atravessam o Brasil, encontrou nas palavras um destino. Ao lado da esposa, também desenvolve o ministério de ensino e pregação na Assembleia de Deus, em Chapecó. Seu primeiro livro, Anathema, está concluído e aguarda o momento de encontrar um editor e, com ele, o caminho até seus leitores.



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