O tempo de uma frase - Hugo Almeida, Osman Lins e o reconhecimento da escrita

“Osman Lins dizia que seus livros não foram inspirados pelos deuses. Foram escritos com esforço, em longo e árduo trabalho, com o sacrifício de horas que poderiam ser dedicadas a atividades mais amenas, como o amor. Concordo com ele. Mas depois que partiu, Osman Lins revelou-se contraditório para mim, pelo menos parcialmente. Mas, pensando bem, talvez seja apenas uma nova faceta da contradição que ele mesmo já havia constatado em vida: a de debater-se entre a ânsia de compreender e a certeza de que tudo é mistério.” (Hugo Almeida em Osman Lins, professor de romance)
Quando pedimos a Hugo Almeida uma palavra para os leitores do Vida em Comum, imaginávamos uma reflexão sobre a escrita ou sobre a formação de um escritor. Hugo nos respondeu com uma lembrança de 1976, quando tinha vinte e três anos e acabara de publicar Globo da morte, seu primeiro livro de contos.
Enviado a diversos escritores para apreciação, o livro recebeu cumprimentos protocolares e agradecimentos. Entre as mensagens estava a de Osman Lins, que havia lido os contos com atenção e escreveu ao jovem autor que a obra lhe despertara grandes expectativas, colocando Hugo entre os poucos escritores novos em cujo futuro valeria apostar.
Osman Lins já ocupava um lugar reconhecido na literatura brasileira. Havia publicado Nove, novena e Avalovara, além de ensaios e peças de teatro, entre elas Lisbela e o Prisioneiro, posteriormente adaptada para o cinema. A leitura oferecida a Hugo vinha, portanto, de um escritor renomado, cuja obra fazia da própria forma do romance um campo de experimentação.
Décadas mais tarde, Hugo Almeida retorna àquela correspondência em Osman Lins, professor de romance:
“O que trago aqui é apenas o relato de um ficcionista que teve o privilégio de ter tido seu livro de estreia lido e comentado por Osman Lins e que o conheceu, em dois rápidos encontros, há trinta e oito anos. O mínimo que posso dizer é que tenho uma dívida infinita com o autor de Guerra sem testemunhas. Se ainda sou escritor e se escrevi algum bom livro, devo isso em grande parte a ele, a seu exemplo de integridade humana e intelectual e à sua obra. Nas últimas três décadas, tenho tentado quitar um pouco dessa dívida. E também honrar a esperança que o autor de Nove, novena depositou em mim.”
A carta permaneceu ligada à formação de Hugo, mas a dívida a que se refere não se resume ao reconhecimento recebido; inclui o exemplo de um escritor, a leitura de sua obra e aquilo que uma referência pode inaugurar no percurso de quem escreve. Em uma entrevista, Osman Lins também fala sobre esse lugar ainda indefinido da escrita:
“não é que escrever seja uma tentativa de reconstruir imaginariamente o rosto materno, mas um rosto que não existe, um rosto imaginário. Falo em termos metafóricos e isto explica que esta reconstrução, no meu caso, não seja feita através de personagens femininos ou masculinos. Na realidade o que eu quero dizer é isso: que o ficcionista tenta reconstruir algo cujo contorno ele pressente, apenas pressente e que a obra realiza.” (Osman Lins, excerto de entrevista)
A formulação de Osman encontra eco na experiência relatada por Hugo. A escrita parte de algo cujo contorno ainda se pressente e encontra na obra o lugar de sua realização; o encontro com outro escritor pode acompanhar esse percurso, ampliar aquilo que o autor percebe no próprio texto e abrir novas possibilidades para a escrita.
No caso de Hugo, aquela experiência não permaneceu como lembrança de um elogio recebido. A admiração por Osman levou ao estudo e à pesquisa, aproximando o jovem autor da obra daquele que havia lido seus primeiros contos.

Essa experiência alcança também quem escreve hoje. Procuramos reconhecimento, leitores, um lugar no mundo, e um livro pode carregar essa expectativa desde as primeiras páginas. O retorno de alguém que admiramos, elogioso ou crítico, pode confirmar nossos passos ou nossas incertezas e nos fazer olhar para a escrita por uma perspectiva que ainda não havíamos considerado.
Foi por uma nova carta que a história de Hugo chegou até nós. Ao pedirmos uma palavra para os leitores do Vida em Comum, recebemos de volta a memória daquele primeiro encontro, preservada por décadas. Em 1976, Hugo enviava um livro em busca de uma leitura. Hoje, seu relato sobre aquele encontro ainda encontra novos leitores.
A essa memória, Hugo acrescentou também um livro: A voz dos sinos: O sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, dedicado à obra daquele que havia lido seus primeiros contos. Publicado décadas depois da carta, o volume registra outra etapa dessa relação, transformada ao longo do tempo em estudo, pesquisa e uma obra própria sobre a literatura de Osman Lins.
O reconhecimento chega como uma frase. A obra e o autor se constroem com o tempo, e quase sempre em companhia.




Comentários