Mil homens, uma família | Sobre o livro O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe | Por Petreya Chaim

Havia dias em que a vila parecia pequena demais para tanta solidão.
As pessoas se conheciam pelo nome, pela janela, pelo jeito de caminhar e, principalmente, pelos comentários que faziam umas sobre as outras. Naquela vila, quase todo mundo sabia da vida de todo mundo. Quase.
Porque ninguém sabia, de verdade, o que morava dentro do coração de cada um.
Havia quem tivesse casa e se sentisse sem abrigo. Havia quem tivesse família e nunca tivesse encontrado pertencimento. E havia aqueles que, aparentemente sozinhos, carregavam dentro de si uma vontade enorme de encontrar alguém.
Foi assim que a vida começou a juntar pessoas improváveis.
Não foi com festa, nem com grandes anúncios. Foi devagarinho. Um encontro na rua. Uma conversa demorada. Um gesto de cuidado. Um lugar oferecido à mesa. Um silêncio compartilhado sem constrangimento.
E talvez seja isso que a vida faz de melhor: aproxima pessoas que jamais imaginariam precisar umas das outras.
Certo dia, alguém perguntou:
— Mas família não é quem nasce da mesma família?
Ninguém respondeu imediatamente.
Talvez porque a pergunta fosse grande demais.
Depois, alguém sorriu e disse:
— Às vezes, família é quem fica.
E aquela frase pareceu abrir uma janela.
Porque há pessoas que chegam sem trazer sobrenome, fotografia antiga ou histórias de infância. Chegam apenas com o próprio jeito de ser. E, quando percebemos, já deixaram uma cadeira ocupada dentro de nós.
Talvez seja por isso que existam filhos de mil homens.
Não porque tenham mil pais, mas porque a vida inteira pode ser feita de pequenos pedaços de tantas pessoas: um conselho de alguém, o abraço de outro, a coragem que aprendemos com um terceiro, a ternura que descobrimos em quem parecia estranho.
No fim, ninguém é feito sozinho.
Somos uma espécie de colcha costurada com encontros.
E talvez a maior surpresa da vida seja perceber que, quando achamos que estamos procurando uma família, na verdade estamos procurando um lugar onde possamos simplesmente ser.
Sem explicações.
Sem medidas.
Sem precisar caber.
Apenas pertencendo.
Porque, às vezes, para deixar de ser sozinho, não é preciso encontrar alguém que seja exatamente como nós.
É preciso encontrar alguém que nos olhe e diga, com a simplicidade das coisas verdadeiras:
— Pode ficar.

Petreya Aparecida Cartolano Chaim – Graduada em Letras e Pós-graduada em Currículo e Prática Educativa (PUC – RJ). Especialista em Projetos Pedagógicos e Coordenadora Pedagógica em Lorena, São Paulo. Integrante da Confraria das Amigas.



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