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O problema das simplificações na literatura

[O Brasil na contínua busca de baixar a régua da proficiência nos domínios do conhecimento de leitura e compreensão escrita]


O Senado Federal aprovou em março de 2025 um projeto de lei que obriga todos os órgãos públicos do país a usarem linguagem simples para comunicarem-se com a população (fonte: Agência Senado), de acordo com o Manual de Comunicação da SECOM.


Longe de desejar um conservadorismo vocabular, ou de manter os grupos corporativos que fazem uso de uma linguagem hermética para preservar seus “status” na sociedade, enquanto participante do cenário editorial brasileiro, põe-se a questão: a medida não acabaria por reduzir, ainda mais, as capacidades cognitivas do cidadão brasileiro médio, privado da literacia por assimilação?


No PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Brasil já conseguiu o seguinte feito: mais da metade dos estudantes de 15 anos está abaixo do patamar mínimo no aprendizado de ciências e matemática. Agora, tenta-se baixar também o nosso placar na leitura (413 em leitura), que já deixou o país em 53º. lugar no ranking mundial de 80 nações (a India não participou em 2022, justificando que a Covid-19 teria solapado a performance dos seus estudantes).


Com o argumento de incentivar uma comunicação clara para facilitar o entendimento pela população, entretanto, o que se lê do Guia “Simples Assim” é um retrocesso e um comprometimento da possibilidade de melhoria da educação através da leitura sistemática de conteúdos mais enriquecedores.


As orientações são do gênero:


“Evite a voz passiva”; “Evite frases com ‘se’, ‘então’”; “Evite frases sem sujeito”; “Evite frases no futuro do presente”; “Evite advérbios e preposições menos comuns e tempos que requerem outros tempos verbais na mesma frase ou expressem condição”; “Evite subjuntivos”; “Evite muitas vírgulas”; “Evite usar verbos como substantivos”; “Evite figuras de linguagem”; “Evite porcentagens, frações e numerais romanos”.


É, basicamente, como voltar ao primário. É para cair de quatro e zurrar, como na lenda de Pinóquio. Com essa medida, o Governo parece imaginar que os leitores dos comunicados oficiais oriundos dos órgãos públicos são analfabetos funcionais, destes que nunca estarão aptos a identificar subtextos, ironias, metáforas, paradoxos, paráfrases, já que sequer a comunicação direta são capazes de compreender.


Segundo a revista Jota, o Governo assume o risco de “privar o cidadão comum do contato direto com domínios do conhecimento e da linguagem que poderiam lhe expandir o repertório e a capacidade leitora”, ou seja, de aprender no curso da vida com a leitura de textos que exijam mais do seu intelecto.


Não se trata de debater questões filosóficas e mais amplas, mas buscar entender se a comunicação, que é a amálgama do tecido social, e que, quanto ao canal utilizado, se projeta em três vertentes (oral, escrita, visual), não estará cada vez mais prejudicada com sugestões como trocar frases “Amanhã fará calor” por “Amanhã vai fazer calor”, como se a primeira forma correspondesse a uma construção de difícil compreensão pelo povo.


Entre os cristãos e evangélicos, a obrigatoriedade da leitura bíblica ainda faz com que leiam depois que terminam o percurso escolar. Entretanto, aos que não professarem fé cristã, nem isso sobrará para a prática da leitura e interpretação na fase adulta. Neste cenário, como Francis Fukuyama¹ adverte, em breve poderá haver um descontentamento imenso com os resultados dessa democracia, fundado na percepção de que o Estado deixou para trás muitas pessoas, incapazes de competir globalmente, e de que falha miseravelmente em reconhecer e respeitar os seus valores intrínsecos e dignidade.


E, se de um lado, os órgãos públicos desejam simplificar a comunicação com o povo, pela redução das suas capacidades de leitura ao mínimo essencial “sujeito + verbo + predicado”, o que dizer da complexidade das regras para a aposentadoria? Não seria um contrassenso, em detrimento do povo, exigir-se simplicidade na comunicação, mas apostar na complexidade crescente das normas jurídicas (mais de 700 leis editadas diariamente, desde a Constituição de 1988) e dos julgados conflitantes e contraditórios, em que até advogados perdem-se entre os meandros da jurisprudência?


Em um país que tem uma demanda crescente (oriunda de uma população média já adulta) por letramento, livros, cultura e educação, inclusive em um cenário de globalização ininterrupta que obriga o grupo economicamente ativo a conhecer até palavras difíceis em inglês (como “growth”, “marketing”, “benchmarking”, “leads”), a revista Jota suscita a seguinte reflexão: “Estaríamos nós, a título de remediação, buscando apenas ajustar o quadro à moldura? Vamos falar mais de educação?”.


Concordamos inteiramente com essa reflexão. Se a linguagem neutra já parecia um ataque terrorista ao VOLP, o “Guia Simples Assim” é mais um golpe desferido contra os brasileiros que desejam alçar algum posicionamento no ranking global de produtividade (porque a produtividade dos empregados será diretamente proporcional à capacidade de compreensão das orientações das empresas).


Em 2025, o Rio de Janeiro ganha a credencial de “Capital Mundial do Livro”, embora os números apontem para um desempenho dramático, um vergonhoso sexagésimo lugar, entre 80 países. Como poderemos nos tornar um país mais leitor, se a leitura não trouxer prazer? E como a leitura trará prazer, se não for através da linguagem? E como poderemos manejar e dominar a linguagem, se a simplificação obriga-nos a escrever com limitações excessivas à construção do raciocínio?


A Bienal do Livro de 2025 trará o audiovisual como tônica da feira literária. Como se percebe, o “hype” já não está no livro, mas no que se faz a partir dele, para o consumo fácil das massas e a redução das reflexões e críticas possíveis. Afinal, quem desejará um país mais crítico e reflexivo, e que pretenda externar as suas críticas, constatações, reflexões e questionamentos no espaço indomado das mídias sociais?


Um escritor proeminente de Portugal, o professor António Carlos Cortez, que levanta a bandeira mais conservadora na educação, a da volta aos livros, sempre que faz suas palestras, apresenta algumas perguntas que valem ser aqui repetidas: “A quem interessa esse estado de coisas?”, e mais, “Quem lucra com esse estado de coisas?”. Estas são as perguntas que também devemos nos fazer, para identificar a origem, as causas e os motivos de um ataque orquestrado contra a capacidade média de compreensão dos brasileiros frente a textos simples, como notícias de jornal e artigos de opinião, que não serão construídos por frases curtas, voz ativa e eliminação dos tempos verbais mais complexos.


Certamente, brasileiros que não conseguem ler advérbios, preposições, adjetivos, coletivos, ou frases com verbos flexionados no futuro do presente, em breve não terão sequer um futuro para chamar de seu.



¹ Fukuyama, Francis. 30 Years of World Politics: What Has Changed? In: Journal of Democracy, Volume 31, Number 1, January 2020, pp. 11-21 (Article). Johns Hopkins University Press.


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