top of page

Quando elas escrevem #1 | Cynthia Roncaglio


A escrita raramente encontra, na vida cotidiana, o tempo que lhe seria próprio. Entre trabalho, compromissos e responsabilidades, reunimos fragmentos de tempo às pressas: rascunhos que permanecem em suspenso, à espera de um momento de calma e elaboração. Ainda assim, é nesses intervalos que o pensamento do autor começa a se formar.


Escrever também é uma forma de compreender aquilo que atravessa a experiência, e o modo como nos movemos por seus caminhos. Aos poucos, esse movimento interior encontra, na inquietação da linguagem, um modo de se organizar e de se tornar partilhável.


Quando elas escrevem é uma série produzida em parceria com a Editora Jaguatirica, na qual convidamos autoras publicadas pela casa a refletir sobre o lugar da escrita em suas trajetórias.


Abrimos a série com Cynthia Roncaglio, autora de Nós somos eles, publicação do catálogo de poesia da Jaguatirica.



Cynthia Roncaglio nasceu em Blumenau em março de 1964. Aos quatro anos foi morar em Curitiba e aos quarenta e dois mudou-se para Brasília. Graduada e Mestre em História, Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná, tem pós-doutorado pela Facultad de Ciencias de la Documentación da Universidad Complutense de Madrid. Atualmente é professora do Curso de Arquivologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Universidade de Brasília (UNB). Não sabe precisar quando passou a se interessar por poesia, mas começou a escrever diários aos treze anos e, de repente, dali foram surgindo os primeiros poemas. "Nós somos eles" é o seu primeiro livro de poesia.


Em sua trajetória, pesquisa e criação caminham lado a lado. O trabalho intelectual presente em sua formação e em sua vida acadêmica encontra, na escrita literária, um espaço de elaboração sensível da experiência. Em Nós Somos Eles, pensamento e linguagem se aproximam para explorar zonas de encontro entre identidade, alteridade e experiência humana. O livro se constrói como uma reflexão que não abandona a dimensão poética da linguagem, permitindo que análise e imaginação habitem o mesmo território.


Essa convivência entre investigação e criação revela também algo do percurso da autora: um trabalho de pensamento que encontra na escrita um modo de observar o mundo e, ao mesmo tempo, de compreendê-lo.


Convidamos Cynthia Roncaglio a responder três perguntas sobre o lugar da escrita em sua vida e em seu percurso intelectual.


1. Ao olhar para sua trajetória, que lugar a escrita ocupa hoje em sua vida?

A escrita ainda não ocupa o lugar na minha vida que eu gostaria. Sou uma leitora contumaz, mas não sou uma escritora contumaz. Como mulher, mãe e profissional ainda me vejo enredada em atividades que me absorvem mais do que a escrita. Meus pensamentos, meus textos delirantes, meus poemas vão ficando alastrados nos cadernos, papéis soltos, blocos de notas, pastas no computador, enquanto a vida flui sem piedade. Mas continuo arquivando esses fragmentos até que eu possa me apoderar do meu tempo - interno e intransferível – para adensar a minha entrega à escrita.

2. Em seu processo de escrita, o que costuma estar na origem de um texto? Uma pergunta, uma experiência, uma pesquisa, uma inquietação?  

Tudo junto e misturado. Tudo que corre por dentro e por fora. Tudo que se põe e o que se dispõe. Tudo que inquieta, menos o que aquieta. Tudo que está registrado e o que ainda não foi fixado em uma superfície. A escrita nasce do caos e para compreender esse caos é que escrevo.

3. O que você gostaria que uma leitora encontrasse ao abrir seu livro?

O que ela estiver procurando.


Sobre a série Quando elas escrevem


A série Quando elas escrevem reúne autoras publicadas pela Editora Jaguatirica cujos percursos de pesquisa, estudo e criação contribuem para a produção de conhecimento e para o debate literário contemporâneo.


Idealizada por uma editora construída por mulheres, a Jaguatirica tem buscado acompanhar e difundir obras que elaboram pensamento por meio do livro. Ao convidar nossas autoras a refletir sobre o próprio gesto de escrever, desejamos tornar visível algo que muitas vezes permanece não-dito no percurso de um livro: o trabalho interior que sustenta a escrita.


Quando elas escrevem, novas formas de pensar e narrar o mundo encontram morada nos livros.


Comentários


bottom of page