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Cartas e Verdade #4 - O personagem está vivo

24 de ago.
3 min de leitura

“Nonada.”


Difícil não se chocar com a simplicidade exótica da abertura de Grande Sertão: Veredas, que completa, em 2026, setenta anos. O clássico brasileiro e universal estabeleceu um critério simples na literatura nacional: nada seria como antes.


E, entre tantas virtudes, uma prevalece para mim: Riobaldo, o protagonista. O jagunço-homem, ou o homem-jagunço, não é apenas um personagem. É uma personalidade histórica. Às vezes, tenho a impressão de que ele nos cerca com seu bando. Sua força, estandarte da natureza humana, continua fazendo novos devotos ao longo do tempo.


Não vou tentar explicá-lo. Creio que, à semelhança de Hamlet, Riobaldo nos oferece um daqueles desafios que não se esgotam na crítica nem na filosofia. Ele nos basta, ou não.


Na história, penso no apóstolo Pedro, dos Evangelhos e das epístolas, como um dos que se sobressaem na plenitude de existir. Vivo, e muitas vezes acuado, impetuoso, vibrante, violento, era a antítese do Senhor e nem por isso menos fascinante. Convertido, muda a abordagem, mas não a essência.


Sua familiaridade se dá no ponto em que somos muito parecidos com Pedro, em algum traço ou em todos. Sua voz de autoridade dá credibilidade ao que descreve; sua presença não é amorfa, nem ausente. Tem corpo, impulso, contradição. Tem história.


Vejamos: “Então, Simão Pedro, que tinha espada, desembainhou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. E o nome do servo era Malco.” Não é bem um conto de fadas.


Criar ou descrever pessoas é uma arte em pleno exercício, cada vez mais complexa. Alguns, na ânsia de estabelecer um marco, criam pessoas e biografias impossíveis, improváveis, e isso, a meu ver, a literatura não perdoa.


O professor Harold Bloom citava alguns personagens de ficção na certeza de que eles existiram de fato e lia a biografia de algumas personalidades como lenda. A questão, para ele, era simples: qual o nível de autoridade daquela voz para estabelecer o status de uma obra?


A resposta produz polêmica e discórdia. Ainda assim, permanece uma certeza: algumas personagens sobrevivem ao tempo; tornam-se ícones e referências culturais, passando a existir para além do livro que as criou.


Nosso homem do Sertão não é tão conhecido do grande público quanto poderia ser, infelizmente. Nesse quesito, Capitu se sobressai. Seu valor, contudo, é indiscutível. Já o apóstolo...


Enquanto escritor de ficção, sei que o desafio está posto. Minhas pessoas são, antes de tudo, aquilo que consigo forjar. Não quero ser hipócrita: não sei se estão à altura.


Tenho, porém, uma pista. Minha protagonista em Anathema, Glória, foi definida por um de meus revisores como: “uma consciência em estado de guerra”. E, para além dos clichês, sim, ela me é um tormento há muito tempo. Assombra-me como se me visitasse com frequência. E, talvez, esse seja um dos sinais de que alguma coisa aconteceu entre a personagem e quem a escreveu.

Mas não é a minha visão que importa.


Será que essa projeção se manifesta nos leitores? Ainda não sei, mas ambicionar essa possibilidade é o mínimo a quem se dispõe a criar ou descrever pessoas.

Riobaldo não pertence mais apenas a Guimarães Rosa. Pedro não pertence apenas aos Evangelhos. Capitu não pertence apenas a Machado de Assis. Se Glória chegar a esse lugar, será porque encontrou, em algum leitor, uma forma de existência que já não depende de mim.




Lázaro Floriano (Joinville, SC, 1981) é formado em Contabilidade e atua na área de logística. Entre cargas e rotas que atravessam o Brasil, encontrou nas palavras um destino. Ao lado da esposa, também desenvolve o ministério de ensino e pregação na Assembleia de Deus, em Chapecó. Seu primeiro livro, Anathema, está concluído e aguarda o momento de encontrar um editor – e, com ele, o caminho até seus leitores.


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