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Quando elas escrevem #2 | Dra. Maria Julia Calas & Dra. Sabrina Chagas


A escrita também pode nascer do cuidado.


No campo da medicina, muitos textos começam no encontro entre médico e paciente. Nesse espaço de escuta, a escrita se torna uma forma de organizar o conhecimento produzido na prática clínica e de transformá-lo em orientação partilhável.


Na série Quando elas escrevem, convidamos autoras publicadas pela Editora Jaguatirica a refletir sobre o lugar da escrita em suas trajetórias. No post de hoje, conversamos com Dra. Maria Julia Calas e Dra. Sabrina Chagas, médicas dedicadas ao cuidado oncológico que encontraram no livro uma forma de prolongar o trabalho iniciado no encontro com seus pacientes e com as histórias que atravessam esse cuidado.


Em suas obras, conhecimento científico e experiência clínica se articulam em uma linguagem acolhedora. O cotidiano de escuta no consultório se prolonga em conversas que seguem para além da consulta, fazendo do livro um espaço de relação e transmissão da experiência vivida.


O primeiro projeto editorial da dupla, Nosso Papo Rosa, surgiu do desejo de esclarecer dúvidas recorrentes sobre o câncer de mama, reunindo informações confiáveis sobre prevenção, diagnóstico e tratamento. Em Nosso Papo Colorido, Calas e Chagas ampliam esse horizonte ao abordar o câncer na população LGBTQIA+, trazendo ao debate questões ligadas à visibilidade, à inclusão e ao acesso ao cuidado médico.


Nesse contexto, a escrita torna possível algo essencial para o exercício da medicina contemporânea: transformar conhecimento especializado em orientação compreensível e útil para quem enfrenta a experiência da doença.


Convidamos Maria Julia Calas e Sabrina Chagas a responder três perguntas sobre o lugar da escrita em suas trajetórias.




1. Ao olhar para suas trajetórias, que lugar a escrita ocupa hoje em suas vidas?


A escrita ocupa um lugar muito especial em nossa trajetória como um todo. Depois de muitos anos dedicadas ao cuidado direto com pacientes, percebemos que escrever é uma forma de ampliar esse olhar. Através dos livros, transformamos o conhecimento científico, experiências do consultório e reflexões sobre a saúde em algo que alcance muitas pessoas.


Nosso primeiro livro, dedicado ao câncer de mama, nasceu justamente desse desejo de traduzir a medicina de forma mais acessível. Já no segundo livro, voltado para o câncer na população LGBTQIA+, ampliamos ainda mais esse olhar, trazendo para o debate a importância da inclusão, da informação e do cuidado em saúde para todos.


A escrita passou a ser, para nós, uma ponte entre ciência, acolhimento e transformação.



2. Em seu processo de escrita, o que costuma estar na origem de um texto?


Nossos textos nascem de uma mistura de tudo isso. Muitas vezes começam com perguntas que escutamos das próprias pacientes ou com situações vividas na prática clínica.


Foi assim que surgiu o primeiro livro, a partir da necessidade de esclarecer dúvidas frequentes sobre câncer de mama, prevenção e tratamento. Já o segundo nasceu também de uma inquietação: a percepção de que ainda existe pouca informação e visibilidade sobre o câncer na população LGBTQIA+.


A pesquisa científica traz a base para tudo que escrevemos, mas são as histórias, os encontros e as perguntas das pessoas que realmente inspiram nossos textos. Escrever se transformou em mais um caminho para levarmos acolhimento e cuidado.



3. O que gostariam que uma leitora encontrasse ao abrir seus livros?

Gostaríamos que cada leitora encontrasse informação confiável, mas também acolhimento e identificação. Que ela se sentisse mais segura para compreender o próprio corpo, tomar decisões sobre sua saúde e perceber que o conhecimento pode ser uma ferramenta poderosa de cuidado.


Também esperamos que nossos livros ampliem olhares — tanto sobre o câncer de mama quanto sobre as diferentes realidades das pessoas que convivem com a doença, incluindo a população LGBTQIA+. Se, ao final da leitura, alguém se sentir mais informada, mais representada ou mais fortalecida, então a escrita já terá cumprido seu propósito.




Sobre as autoras:


Maria Julia Calas escolheu a Medicina para cuidar das mulheres, dedicando-se à ginecologia e mastologia desde que se graduou. Referida como “gênio indomável” na sua banca de doutorado, não se conteve apenas com os estudos e pesquisas. Incansável na busca de entender e acolher as mulheres, na saúde e na doença, idealizou o projeto "Nosso Papo Rosa", uma de suas grandes paixões.


Sabrina Chagas, desde sua graduação, atuou em instituições de referência na Oncologia. Achava que essa seria sua rotina para sempre. Em 2015, como familiar de paciente oncológico, escreveu o livro “Como estamos? O desafio do câncer de mama” e sentiu necessidade de ir além. Ver o paciente como um todo, desmistificar o câncer e levar acolhimento através de suas mídias, palestras e cursos, constituem hoje o seu maior propósito e a sua missão. Sabrina Chagas e Maria Julia Calas são as organizadoras do livro "Nosso Papo Rosa" (Jaguatirica, 2021), o primeiro volume do Instituto Nosso Papo Rosa.



Sobre a série Quando elas escrevem


A série Quando elas escrevem reúne autoras publicadas pela Editora Jaguatirica em diferentes campos — da literatura à medicina, da pesquisa acadêmica à prática profissional — e torna visível o percurso que sustenta o gesto de escrever.


Leia também o primeiro post da série.



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